Saturday, September 16, 2017

Indigna Nação

Ah, os artistas... Sempre eles...

Samuel Rosa, líder da banda Skank, tentou dar um recado durante sua apresentação no Rock In Rio mas não foi muito feliz. Esboçou uma linha de raciocínio meio tosca para esculachar os políticos brasileiros e separá-los do povo. Ninguém discorda que nossos políticos merecem ser esculachados, extirpados, presos. Mas você acredita mesmo no povo brasileiro, Samuel? Quem colocou os políticos em seus cargos, Samuel? “Cada povo tem o governo que merece”, já dizia Joseph-Marie Maistre em 1811.

O pior foi a reação do povão – aquele em que Samuel acredita. Os brados de “Fora, Temer” ecoaram em uníssono pelo mar de gente que lotava a Cidade do Rock. Será que ninguém entendeu nada? Samuel tentava separar o povo brasileiro de toda a escória política, e a galera responde com bordão de cunho político. Será que sabem que Rodrigo Maia – outro político, de família e de carteirinha – assumiria o comando? Meu Deus... Só faltou o grito de “Volta, Lula” para carimbar de vez que “a gente somos inúuuutel”.

Samuel tentou consertar, afirmando que – “de um lado ou de outro, nós não nos parecemos com os políticos”. Pareceu tentar dizer que, independente de sua ideologia, nenhum político lhe representa. Mas o “Fora, Temer” continuou. Seria bom Samuel esclarecer de qual lado ele próprio está, visto que vez ou outra fez declarações pró-PT. Samuel, as malas de dinheiro às quais você aludiu são atribuídas a um sujeito que era ministro do governo PT...

No meio do seu “discurso”, Samuel afirmou que o dinheiro das malas deveria estar sendo empregado em mais leitos nos hospitais, na educação, nas estradas e “para a nossa criançada não cair no crime”. Como o sujeito que tem uma banda batizada com nome de entorpecente (e que, naquele mesmo palco em 2013, fez uma leve apologia à maconha) pode querer passar uma mensagem anti-drogas? Será que estava chapado?

Samuel ensaiou um acerto ao criticar a “passividade” do povo brasileiro que “felizmente está se dissipando”. Relaxa, Samuel: daqui a pouco tem carnaval no país tropical e aí a passividade deixa de dissipar e volta com força total. Pena que, num piscar de olhos durante sua fala, Samuel “passivamente” desistiu de criticar a parcimônia do brasileiro, perdendo uma grande oportunidade de atribuir ao nosso eleitorado bobalhão a sua justa parcela de culpa nisso tudo.

Na sequência, Samuel entoou  a canção “Indignação”. Como o discurso foi uma baita bola fora, poderia tê-lo emendado com o hit “É uma partida de futebol”.

Festival de rock é um bom lugar para protestar e, de fato, não faltam motivos para protesto no Brasil – Lula, Temer, Aécio, Dilma, Geddel, etc. Mas os artistas se esforçam para desafinar. Dinho até deu o recado em 2013, mesmo que atrapalhado e sem eloquência. João Barone atravessou feio o tempo em 2015. E agora Samuel nos deixa rosas de vergonha... Dá-lhe, Fabio Júnior!


Monday, September 11, 2017

Yes, we have storms!

Enquanto o mundo inteiro acompanha o furacão Irma, é interessante imaginar como seriam os furacões do Atlântico se eles nascessem no Brasil...

Os furacões Gisele, Alessandra e Izabel já conhecemos bem. Saíram do Brasil, chegaram aos EUA, arrebentaram por lá e continuam causando estragos aos corações.

O furacão Neymar seria ensaboado, driblando os fiscos de todos os países por onde passasse. Geddel, por sua vez, faria chover dinheiro vivo.

A tempestade Fernando Henrique seria inofensiva – daria palpite em tudo mas não sairia do lugar, ficando sempre à esquerda.

Já o furacão Jandira carregaria faixas ridículas (“Não mexam nos meus direitos”), posaria com “intelectuais”, defenderia marginais, drogados e arruaceiros, mas no final só teria 3% de votação. Categoria 1, sem necessidade de evacuação. Causa mais raiva, indignação e vergonha do que devastação. Freixo é parecido, porém muito mais perigoso. Conta com alto poder destrutivo apesar de parecer uma brisa do mar.

Joesley seria um furacão de trajetória única. Atravessaria o Brasil inteiro sem perder força, para, ao chegar ao oceano, teletransportar-se para Nova Iorque onde acalmaria instantaneamente. Só causaria danos mesmo ao Brasil. Wesley viria na sequência, fornecendo quentinhas superfaturadas de linguiças recheadas de papelão para as famílias desabrigadas. O governo financiaria este projeto a uma taxa camarada.

Chico, historicamente, é uma tempestade mediterrânea, acometendo primordialmente países como Itália e França. Só de vez em quando aparece no Brasil para dar uma tumultuada. Este já cansou a nossa beleza e ele sabe disso.

O furacão Wyllys seria espalhafatoso, gesticuloso, cuspindo para todo lado (assim como Abreu); mas também teria danos contidos. É sempre a mesma turminha de “estudantes” que está em sua trajetória. Para os demais, é um zero à esquerda.

Quanto ao furacão Crivella, ninguém nunca o viu ou registrou sua ocorrência. Há dúvidas sobre sua existência. Já o furacão Dória corre o risco de “acelerar” demais e logo perder a força – seria uma pena.

As tempestades Dilma, Lula e Cabral criam uma nova classe de furacões, a "categoria X". O "X" aqui é uma incógnita mesmo, pois a devastação causada por eles é de difícil medição. Mesmo anos depois de sua passagem, descobrem-se danos bilionários antes escondidos nos escombros. É como se conseguissem estocar vento.

O furacão Gilmar seria o equivalente atmosférico da caixa de Pandora. Libertaria todos os demais tornados e tempestades, deixando-os soltos para causar os danos que bem quisessem. Uma arma de destruição em massa de fazer inveja ao maluco da Coréia do Norte.

E, finalmente, o furacão Gérson deixaria o Irma no chinelo. Gérson quer levar vantagem em tudo, então furaria a fila, passando à frente dos demais furacões e frustrando qualquer previsão meteorológica acerca da sua trajetória. Não haveria tempo para evacuação, seria devastador. Os brasileiros de bem que o digam.


Friday, August 25, 2017

Intelectuais, uma vírgula

Ah, nossos intelectuais... Que turminha tinhosa. Não perdem a chance de se imiscuírem em qualquer debate, sobre qualquer assunto, sendo que em 99% dos casos defendem ideias datadas, estapafúrdias e/ou de interesse próprio (mas não prescindindo do disfarce altruísta).

Recentemente, num ato em suporte ao juiz Bretas (e, claramente, expondo o lamentável Gilmar Mendes) parecem ter tido o raro 1% de acerto. Será?

Quase. Bateu na trave. O cartaz que foi utilizado para o “momento Kodak” do evento continha um erro grosseiro de português. “Não se separa o sujeito do predicado com vírgula”, repetem ad nauseum os professores de Língua Portuguesa. Mas nossos intelectuais cravaram lá: “O Rio, está com você”. Respondendo na mesma moeda: “Este autor, lamenta que vocês tenham tanto espaço na mídia”.



Não foi só em Língua Portuguesa que nossa “elite intelectual” levou bomba na escola. Não aprenderam nada em matemática. Qualquer criança de seis anos que já saiba somar e diminuir consegue antever que aquele que gasta mais do que arrecada vai bater no muro alguma hora. Mas nossos atores e cantores não se furtam a sustentar que a reforma da previdência é maligna. Os backing vocals desta cansada interpretação ficam a cargo de Chico Alencar, Molon e afins, cuja cara de pau é merecedora de Oscar: “Não mexam nos meus direitos”, costuma dizer o cartaz que carregam para o Congresso. Nobres deputados, é justamente nos vossos direitos (leia-se: regalias) que temos que mexer!

Mas, certamente, o pior desempenho desta trupe foi em História. Não entenderam nada. “O Capital” virou jornal velho 10 anos após sua publicação, pois a Revolução Industrial melhorou a vida das famílias. Os ídolos da esquerda – Chávez, Guevara, Fidel, Pol Pot, Lênin, Mao Tsé-Tung –  foram, na verdade, impiedosos assassinos contrários a qualquer forma de democracia. Berlim foi reunificada pela falência do modelo socialista, que – com trocadilho, e como previra a criança de seis anos – bateu no muro.

Nossos pensadores também não aprenderam quem foram Mussolini, Hitler e outros tantos. Não conseguem ver que as ideias que hoje defendem deixariam Il Duce orgulhoso e – pior – saem por aí bradando “fascista!” a qualquer um que se oponha à pauta dos partidos de esquerda. Devem ter perdido a aula onde o professor explanou que o Nazismo era uma filosofia socialista que denunciava o individualismo e o materialismo, enaltecendo o estado como grande protagonista. Partido Nacional Socialista, National Sozialist, Nazi. Captaram agora? So-ci-a-lis-ta.

Será que estavam à toa na vida este tempo todo?

Há muito já passou da hora de mídia e público entenderem que não basta tocar bem um instrumento, compor uma boa canção, subir num palco ou interpretar um traficante em série da Netflix para se qualificar como intelectual. Parafraseando Dilma Rousseff – que não canta, não compõe e não atua, mas já pegou em armas clandestinamente e, portanto, é intelectual qualificada – é “estarrecedor” que se aceite que qualquer artista possa ter uma opinião valiosa sobre qualquer assunto concernente à sociedade. Ressalva: fazendo justiça a Dilma, ninguém profere discursos tão memoráveis quanto os seus – é, de fato, uma artista.

Ser cantor não qualifica o sujeito a opinar sobre maioridade penal com mais propriedade que um engenheiro, um marceneiro ou um veterinário. Não é mesmo, Chico? Ser atriz não dá à cidadã a virtude da clarividência sobre relações trabalhistas ou tributação. A pessoa que se empenha no estudo de técnicas de interpretação ou impostação vocal certamente não se especializa em cálculo atuarial (dica para os intelectuais: aqui, fala-se de previdência, ok?).


Portanto, intelectuais: se não têm nada de útil a dizer, calem-se. O povo de bem do Brasil já cansou de vinho tinto. 



Saturday, May 20, 2017

Suprema inconsistência

Nova crise política deflagrada pela gravação da conversa do presidente Temer com Joesley Batista. Mudam os protagonistas, segue o circo em Brasília.

Neste momento de incerteza, especulam-se cenários e, em cada um deles, qual seria o rito no Supremo Tribunal Federal e como a corte se posicionaria. Muitos brasileiros confiam na higidez do STF e na sua condição de bastião da democracia, da justiça e da Constituição.

Infelizmente, nestes últimos dois ou três anos de bandalheira, o STF tem sido um espetáculo à parte. Tragicômico, senão pastelão. A corte que deveria servir de exemplo ao poder judiciário apresentou comportamento errático, inconsistente e, por vezes, vergonhoso.

Lembremos:

O STF retirou Renan Calheiros da linha sucessória pelo fato de ele ser réu. Então, por que motivo cósmico Lula, também réu, pode ser candidato à presidência? A sociedade está cansada de dois pesos e duas medidas, afinal todos são (ou deveriam ser) iguais perante a lei. Não ensinam mais isso na faculdade de Direito?

O STF decidiu que a famosa gravação “tchau, querida” entre Lula e Dilma deveria ser desconsiderada como prova na avaliação sobre a possibilidade de Lula assumir ou não a Casa Civil. “Não se pode grampear o presidente” foi a tese da vez, embora a tal gravação tenha sido oriunda de escuta autorizada no telefone de Lula, cidadão comum e sem foro especial, apenas mais um desempregado dentre os 14 milhões que temos. Agora o entendimento mudou: uma gravação, esta clandestina, do presidente Temer não só é aceita como válida mas também é gatilho para a abertura de um inquérito pelo STF. Hein?

Uma corte cuja razão de ser é prezar pelo cumprimento da Constituição conseguiu o feito de rasgá-la a céu aberto. Em um de seus mais lastimáveis momentos, o STF validou a manobra de Renan Calheiros de não tornar Dilma inelegível por consequência do impeachment, ferindo frontalmente o que reza nossa carta magna. Qualquer pessoa que compreenda a língua portuguesa é capaz de concluir que o artigo que trata desta matéria não dá margem a interpretações.

Suprema inconsistência, Batman!

Mas talvez o ápice da disfunção do STF seja a homologação do acordo de delação de Joesley Batista e seus asseclas da JBS.

Joesley conseguiu barganhar a sua liberdade e migração para um país estrangeiro depois de ter cooptado um sem número de políticos e servidores públicos. Este boçal ainda teve a pachorra de – através da JBS – divulgar uma nota de desculpas onde diz que a culpa é do “sistema brasileiro" e que no exterior conseguiu “expandir negócios sem transgredir os limites da ética".

Joesley, com todo o respeito – se é que merece algum – vá se foder! Você chegou onde chegou transigindo todo e qualquer princípio ético, beneficiou-se de recursos dos contribuintes que morrem na fila dos hospitais, que não encontram vagas em escolas públicas e que não gozam de segurança pública decente. Em um país sério, você não teria prosperado, Joesley. Em um país sério, você ficaria 300 anos na cadeia. Tome cuidado nos EUA...

A nota de “desculpas” da JBS é uma afronta a todo brasileiro que acorda cedo para trabalhar ou para buscar emprego de forma honesta. Estes também enfrentam o “custo Brasil” e, ainda assim, não cruzam a linha da ética. Joesley, sua carta é também um acinte a empresários brasileiros que prosperaram de forma proba, sem recursos subsidiados do BNDES ou favores do governo, vencendo o “sistema brasileiro" com competência, investimento e criatividade, gerando empregos e, merecidamente, acumulando algum patrimônio (ainda que com cifras que padeçam frente sua fortuna suja de esterco e papelão).

O pior de tudo é o STF anuir a esta palhaçada. Ao fazê-lo, o STF sentenciou que o crime compensa no Brasil. Deixa de ser inconsistência e torna-se inconsequência. Suprema inconsequência, Robin!

Joesley, ungido pelo STF, protagonizou na vida real a célebre cena de Marco Aurélio, personagem de Reginaldo Faria na profética novela Vale Tudo. Na trama, Marco Aurélio dá um desfalque na empresa onde trabalhava, foge para o exterior com o dinheiro e dá uma banana para o Brasil. Joesley roubou todos os brasileiros, se mandou para os EUA e enfiou uma linguiça (recheada de papelão) em todos nós.




Monday, May 1, 2017

Sob o manto da ilegitimidade

O presidente Michel Temer tem sido firme nas negociações das reformas. Há uma chance razoável de – em apenas dois anos – Temer engendrar a aprovação das reformas previdenciária, trabalhista e política.

Temer é impopular, tachado de golpista por diversos setores da sociedade e próximo a diversos políticos citados nas delações da Odebrecht. Temer não foi eleito presidente (assim como Sarney e Itamar), mas sua chapa foi eleita pelo voto direto duas vezes. Ainda assim, Temer tem o estigma de ilegítimo.

Que bom! Trata-se de uma grande vantagem para ele e o habilita a mudar o Brasil.

Nenhum candidato seria eleito com uma plataforma de reformas impopulares no curto prazo, pois alteram o status quo e tiram diversos grupos de sua zona de conforto. Politicamente, é difícil propor reformas cujos benefícios começarão a ser percebidos em 5, 10 ou 30 anos. Mesmo nos países nórdicos, que gozam de alto nível de educação, seria difícil imaginar um candidato com este tipo de agenda de longo prazo vencendo um pleito. No Brasil, país com baixo índice de escolaridade e polpudas benesses para grupos seletos, é virtualmente impossível.

No entanto, Temer tem o manto da ilegitimidade. Chegou ao poder pelo convoluto impeachment de Dilma, rompeu com o PT, está ainda no prego no TSE e, aparentemente, não tem grandes pretensões eleitorais para o futuro. Pode, no liguajar chulo, “ligar o foda-se” e fazer as reformas que todos entendem necessárias mas que nenhum antecessor ousou levar a cabo, pela provável morte política e eleitoral que lhe resultaria.

Margaret Thatcher, durante seus mandatos de primeira-ministra, foi impopular. Teve breves episódios de melhoria de aprovação quando da campanha na guerra das Malvinas e também na sequência do atentado que sofreu em Brighton. Entretanto, no cômputo geral, pesaram mais sua obsessão em privatizar diversas companhias estatais ineficientes, seu combate frontal aos sindicatos, sua irredutibilidade frente à longa greve dos mineiros de carvão (e de outros setores sindicalizados), e sua postura de não capitular na negociação com grevistas ou terroristas presos que lançavam mão de greve de fome. Esta postura resoluta na busca por quebrar importantes paradigmas acabou determinando sua impopularidade e seu alcunho “Dama de Ferro”.

Algumas décadas depois, poucos discordam que Thatcher foi um ícone. O Reino Unido tornou-se uma economia muito mais eficiente com as privatizações  e o estado ficou mais leve. Thatcher criou espaço para reduzir impostos, fomentando com isso a atividade econômica e o investimento por diversos anos. Houve aumento do emprego, uma vez que o custo sindical fora severamente reduzido. Muito deste ciclo virtuoso só foi plenamente verificado após o fim da era Thatcher, de sorte que ela não desfrutou da popularidade que, por mérito, lhe caberia.

Que Temer siga o mesmo caminho de Thatcher: peite os sindicatos e consiga extirpar este câncer no Brasil, privatize tudo o que for possível, reduza o tamanho do estado para depois cortar impostos e não se curve perante manifestações barulhentas. Com isso, conseguirá mudar o Brasil de verdade, acabando com muitos dos velhos vícios da nossa sociedade e tornando o país mais competitivo para as próximas décadas.

Como diria João Dória, “acelera, Temer”. 

Thursday, April 27, 2017

Je suis Tiriricá

Há algumas semanas, o deputado federal Francisco Everardo, mais conhecido como Tiririca, postou uma carta aberta nas redes sociais. Nela, o deputado repudia a ligação incestuosa de seus colegas parlamentares com a Odebrecht, diz-se decepcionado com a atitude de os políticos buscarem vantagens pessoais em detrimento do bem comum e, ao final, relata sua vontade de “esganar esses canalhas”.

Senhoras e senhores! Respeitável público! Apresento-lhes um político que fala a verdade, um homem que entrou na vida pública sob chacota e que, hoje, dá lição de conduta republicana à maioria dos parlamentares de carteirinha. Uma salva de palmas!

Tiririca exalta o juiz Sergio Moro, fazendo votos que prenda “todos os bandidos que roubaram a Petrobrás, o BNDES, a Previdência e a esperança dos brasileiros”. A carta defenestra a Lei de Gérson, aquela pela qual o indivíduo “quer levar vantagem em tudo” e afirma que está faltando aos homens públicos decência e entendimento de que seu papel é servir o povo. Tiririca coloca-se em posição diametralmente oposta à do corporativismo e torna-se um improvável “outsider” na cena política, despontando como um dos poucos legítimos representantes dos cidadãos de bem.

Um parêntesis: a roubalheira desnudada pela lista da Odebrecht é apenas uma faceta da velha prática de lesa-pátria. As obras públicas custam duas, três, cinco vezes o que deveriam custar. Como escreve Tiririca, isso mata gente na fila dos hospitais. Mas há um outro lado: os ativos entregues pelas empreiteiras em obras públicas são ruins, quando não péssimos. Exemplos abundam: algumas obras das Olímpiadas do Rio de Janeiro ficaram danificadas na primeira chuva forte que acometeu a cidade, isso sem falar da ciclovia carioca que – com apenas três meses de inaugurada – desabou numa ressaca e causou mortes.

Ou seja: gasta-se muito mais do que o necessário e a população recebe um ativo muito pior do que o contratado. Obras públicas, em qualquer lugar do mundo, estão sujeitas a estouros de orçamento (com ou sem corrupção) e atrasos. Mas, em países decentes, entregam-se ativos que terão vida útil de 30, 50, 100 anos. Um breve passeio pelas capitais europeias é suficiente para corroborar este ponto.

Voltando à missiva de Tiririca, em certa altura ele afirma que não está “conseguindo amar o próximo”. Nobre deputado, não é somente Vossa Excelência. Trata-se de uma doença brasileira, somos um dos países onde menos se confia no próximo. Os homens públicos, que deveriam dar exemplo de probidade e lisura, ao contrário contribuem para enterrar de vez a presunção da honestidade no Brasil. É impossível (ou, no mínimo, incauto) amar o próximo nestas terras tupiniquins.

Tiririca conclui seu texto com brilhantismo: “O povo precisa fazer uma limpeza geral da classe política. Não adianta a Justiça condenar se o povo absolve”. Mais uma salva de palmas, desta vez lembrando que 2018 vem aí.

Francisco Everardo conquistou minha admiração e é um dos poucos parlamentares que me representa. Assim como ele, fui palhaço por muito tempo: ele pelo ofício circense, eu por ter insistido em acreditar do Brasil. Assim como ele, abomino a Lei de Gérson. E, assim como ele, tenho vontade de esganar muitas pessoas todo santo dia, porque o Brasil cansa demais.

Je suis Tiriricá!!


Wednesday, April 26, 2017

A greve mais grave

Está anunciada uma greve “geral” para 28 de abril, sexta-feira. Está longe de ser uma greve geral, pois diversos setores produtivos estarão em pleno funcionamento, contribuindo para tentar tirar a economia do buraco em que a meteram. Trata-se de mais uma cortina de fumaça dos sindicatos e partidos de esquerda, com objetivo de desviar a atenção da opinião pública da realidade que está sendo desnudada pela operação lava-jato. E, convenientemente, a tal greve acontecerá na véspera de um feriadão.

Os baderneiros já aprontaram outras bagunças nos últimos anos. Tudo motivado pela política e pelo desespero de estarem perdendo as benesses que acumularam ao longo dos últimos governos.

Muitas pessoas não repreendem essas manifestações, mesmo sem concordar com sua motivação, amparando-se na defesa do direito constitucional à greve. Quem pensa assim foi iludido pelo teatro dos desordeiros, pois o direito à greve refere-se ao debate de questões patronais. Convocação de greve geral por agenda política fere o espírito da Constituição.

De outra forma, tudo viraria pretexto para greve. Qualquer notícia vinda de Brasília que desagrade a um ou outro grupo: tome greve! Aumentaram o imposto da cerveja? Greve! O Flamengo perdeu no STF? Greve! É esse o país que queremos? Lembrem-se do que está escrito na nossa bandeira: “Ordem e progresso”. Ordem: funcionamento normal e organizado, previsibilidade, segurança.

**

Há um aspecto especialmente temerário nesta dinâmica: a paralisação de aulas em diversas escolas de grandes cidades.

Este ano, várias escolas paralisaram as aulas em 15 de março com a justificativa de que as matérias em discussão em Brasília naquele dia eram de enorme interesse e importância para os profissionais do ensino, e que seria importante que eles acompanhassem seu desenrolar. Mesmo que fosse este o motivo, tratar-se-ia de um racional raso, pois, de forma análoga, os bancos deveriam parar de operar nas datas em que qualquer matéria concernente ao setor fosse ser discutida. Bem como transportes, hospitais, segurança pública ou qualquer outro setor econômico. Se todos adotassem postura similar, viveríamos num caos (os capixabas que o digam). Portanto, a decisão de algumas escolas por suspender as aulas em março foi inoportuna, passando às crianças e aos jovens a mensagem de que seu colégio coaduna com a desordem ou que, no mínimo, certas agendas externas preponderam sobre a boa condução da atividade acadêmica, objetivo-primo da escola.

(A quem interessar, a verdade é outra: houve movimentação dos grupos de esquerda e dos professores-militantes imiscuídos nas escolas para fomentar a paralisação.)

Já seria um absurdo em escolas públicas, mas nas particulares é um disparate de proporções napoleônicas... Eis que, ao longo desta semana, várias escolas particulares anunciaram nova paralisação por conta da greve “geral” de sexta-feira. De novo, ela não será geral: algumas escolas com diretorias mais lúcidas e imparciais já avisaram que as aulas estão mantidas (há alguma luz no fim do túnel?).

Mesmo que a greve fosse legítima (de novo, com o intuito de discutir questões patronais – não é o caso), não cabe ao empregador dar a bênção para que seus funcionários participem da manifestação. É uma subversão da ordem natural das coisas: o empregado é que deve optar por aderir ou não a interrupção, assumindo os riscos e eventuais sanções se o fizer. A empresa, por sua vez, deve envidar melhores esforços para que o serviço contratado seja prestado ao cliente a contento, mesmo que em regime de contingência.

Contudo, o ponto fulcral nesses episódios é a crescente politização das escolas particulares (as públicas, em sua maioria, são um caso perdido infelizmente). Muitas instituições particulares – em seus comunicados – dizem-se democráticas e defensoras de movimentos que busquem o bem comum e a justiça. Ora, cabe a cada observador julgar se determinada manifestação visa, de fato, bem comum e justiça, sendo que discordar e debater é a prática mais saudável. O fato de um colégio interromper as aulas – ou seja, sancionar a greve –  inevitavelmente o posiciona a favor dela, suprimindo a possibilidade de debate e retirando dos alunos a liberdade para formar suas próprias opiniões de maneira independente. O colégio assume o papel de juiz, senhor da verdade e prontamente expede seu veredicto.

Mais uma vez, no intervalo de apenas um mês, os colégios que dão seu aval à greve passam aos seus aos alunos a ideia de frivolidade do processo acadêmico, que pode ser interrompido e bagunçado por qualquer evento exógeno. Esta mensagem enfraquece a legitimidade de o colégio cobrar do aluno seu máximo empenho nas atividades acadêmicas. Ou seja, cria o risco de o processo de aprendizagem ser sensivelmente prejudicado no longo prazo.

Uma das tarefas mais difíceis para educadores é fazer com que crianças e jovens se interessem por atualidades. As escolas perdem uma grande oportunidade de fazê-lo ao suspender as aulas, pois poderiam usar o tema que (supostamente) justifica a greve como tópico de debate em sala. Poderiam transformar polêmica em conteúdo pedagógico. O quê está acontecendo no nosso país? Por que as pessoas protestam? Quais os pontos positivos da manifestação (ninguém disse que educar é fácil...)? Quais as consequências negativas?

Até aqui, os grandes vencedores este ano são os professores militantes e suas respectivas facções que, através das repetidas paralisações, conseguem perpetrar o incrível feito de já plantar a semente para futuramente colheitar massa de manobra nesta geração mais jovem, que apenas começa (ou que nem iniciou) sua vida política. E, pior: contam com a anuência da escola, à revelia dos responsáveis e sendo remunerados (sem desconto pela falta) com o suado dinheiro dos pais. Pais estes que pagam impostos, não recebem do estado o serviço essencial de educação e ainda têm um teto risível de desconto no imposto de renda para a rubrica de educação privada.

Nosso país vive uma transição política, uma lavagem de roupa suja a céu aberto e uma recessão econômica, tudo ao mesmo tempo. Haverá muitos protestos em 2017 e em 2018, ano eleitoral. Se os colégios seguirem paralisando as aulas sempre que houver qualquer manifestação – seja ela de qualquer corrente política ou sob qualquer égide – será impossível terminar o ano letivo com completude do conteúdo pretendido, além de perigosamente ratificar a mensagem para os alunos que o compromisso acadêmico é secundário, fluido ou irrelevante.

Nota zero para tudo isso. Reprovados!