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Showing posts from 2015

Alô, Chico

Esta semana, o compositor Chico Buarque foi interpelado por “populares” que foram-lhe questionar seu teimoso apoio irrestrito ao PT. Um dos rapazes bradou que “o PT é bandido” – um erro, pois mesmo o PT não pode ser generalizado. Chico retrucou com “o PSDB é bandido”, faltando-lhe qualquer centelha da habilidade com as palavras que desfila em suas composições. Chico também generalizou, tornou o embate maniqueísta e ratificou o racha do país promovido pela gestão petista. Chico, não é porque um partido parece-lhe bandido que você deve emprestar sua imagem para apoiar outro. Chico, se não tem nada a dizer, cale-se pois o Brasil já enjoou de vinho tinto.
Chico devia estar à toa na vida e não viu a banda passar nestes treze anos de governo do PT. Foi assim: havia um partido onde a honestidade morava, dizendo resolver as questões do Brasil. Finalmente, ele chegou ao poder e, com a rapidez de uma estrela cadente, começaram a brotar escândalos de corrupção. Mas pela sua lei (e às custas de en…

Esquerdo adquirido

Em tempos de troca de ministro da fazenda, com a escolha para o posto agraciando um aspone do governo federal com perfil desenvolvimentista (leia-se perdulário), o risco de o ajuste fiscal ser adiado aumenta bastante. Num de seus poucos acertos enquanto ministro, Joaquim Levy, já de saída, escreveu para Dilma que a única forma de evitar uma hecatombe fiscal é reformar a previdência.
O problema previdenciário é simples e conhecido. Diversos países e empresas já o vivenciaram: à medida que as pessoas vivem mais tempo e as taxas de natalidade caem, a poupança dos mutuários na ativa torna-se incapaz de financiar os benefícios correntes dos aposentados. Se o sistema não for bem equacionado, o desequilíbrio cresce de forma exponencial e quebra o patrocinador: não se trata de futurologia e sim de álgebra. Dilma e petistas podem dizer o que quiserem, mas 2 e 2 ainda são 4.
No Brasil, há alguns agravantes. O sistema previdenciário brasileiro é do tipo “pay as you go”, o que significa que não há …

Vendaval da mudança?

O vendaval que destruiu a estrutura da árvore de Natal da Lagoa reacendeu animosidades de alguns cariocas. Nas redes sociais, pôde-se ver uma onda de comentários comemorando o possível cancelamento da festividade este ano, enquanto outros moradores torcem para que a árvore seja consertada a tempo do Natal.
Certamente a árvore de Natal gera movimento intenso de carros e pessoas e traz mais transtorno ao já caótico trânsito de dezembro na cidade (não que o trânsito seja bom nos demais meses...). Os moradores da Lagoa e bairros próximos têm, portanto, motivo legítimo para criticar a árvore: ela atrapalha enormemente seu ir e vir.
Por outro lado, a árvore é uma diversão gratuita, atraindo moradores de áreas mais pobres e constituindo ótimo programa familiar numa época de confraternização. Ademais, o evento movimenta bastante o comércio da orla da Lagoa (formal e informal), ocasionando receitas relevantes aos quiosques e ambulantes. O município também se beneficia, levando à rua hordas de …

Jason vive

(Este artigo foi escrito à época das demonstrações "pró-Dilma" ocorridas em 13 de março de 2015, também uma "sexta-feira 13". Na ocasião, não foi publicado. Aproveito o ensejo desta "sexta-feira 13" para postar o texto. Uma pena que as manifestações "pró-decência" tenham perdido força no ínterim e que Jason Inácio ensaie mais uma ressurreição.)


Sexta-feira 13 recheada de manifestações pró-Dilma: a bandeira reciclada e cansada do PT combina muito bem com a data. Afinal, “Sexta-feira 13” é, também, a série de filmes mais contrangedora que já foi produzida. Não só pelas infindáveis sequências, mas também pelas maneiras inverossímeis e fantasiosas pelas quais Jason ressuscita. Parece o PT.
Durante a campanha eleitoral de 2014, o PT culpou a “crise internacional” pela piora da economia. Seria aquela crise já distante de 2008-09, da qual os Estados Unidos saíram fortalecidos e com economia hoje pujante? A tal “crise” é como o Jason que nunca morre: quan…

É social!

No meio de uma séria recessão, onde a solução para o problema fiscal do país passa necessariamente por voltar a crescer o PIB, o governo enfia mais um imposto goela abaixo da classe média. O FGTS para empregados domésticos é um aborto da natureza, só mesmo uma administração irresponsável como a do PT poderia implementar uma barbaridade tamanha. E no pior momento possível.
O empregado doméstico, como o nome diz, trabalha num domicílio. O domicílio é sustentado por trabalhadores, a maioria deles assalariados de classe média. Toda vez que o governo aumenta encargos trabalhistas, achata a renda discricionária dos domicílios que empregam cozinheiras, faxineiras, jardineiros, babás e outros profissionais. No limite, a renda familiar torna-se insuficiente e o funcionário tem que ser demitido ou ficar na informalidade se quiser manter o emprego. (Isso sem falar no aumento da conta de luz, aquela que a presidente garantiu que não ia subir... pelo jeito ela não conseguiu estocar vento suficient…

Rock In Hell

Passado um mês do início do Rock In Rio 2015, vale uma reflexão sobre esta última edição.
O show do Queen, um dos mais rápidos a ter ingressos esgotados, mostrou que os dinossauros estão vivos. Não é necessário – nas próximas edições – que a organização repita os convites a Metallica, Slipknot, Iron Maiden, Katy Perry e outras figurinhas fáceis por aqui. O Queen mostrou que a música pode vencer o marketing, assim como Bruce Springsteen o fez na edição anterior. Então, quem sabe, possamos ver mais rock e menos Ibope no palco mundo.
Esta edição reacende um antigo debate que acompanha o festival desde a edição de 1991 – a condição de supporting act imposta aos artistas brasileiros. Qual é o sentido de Lulu Santos, nosso maior hitmaker, ter apenas uma hora de show? Não é tempo suficiente nem para a metade das canções que o público sabe de cor. Ou relegar o Angra – referência mundial em heavy metal melódico – ao palco sunset e escalar as irrelevantes Gojira ou Royal Blood para o palco mundo…

Imagine

Portugal, 1759. Marquês de Pombal decide extinguir o sistema de hereditariedade das capitanias do Brasil. Prestes a assinar o ato, ouve a ponderação de seu assessor: “Mas a hereditariedade é um direito adquirido de famílias de fidalgos”. Então, o marquês decide voltar atrás e mantém a hereditariedade das terras. Imagine como seria a História...
Brasil, 2015. Um governante corajoso realiza uma reforma ministerial apontando, para cada pasta, a pessoa mais competente para o cargo, independente de filiação partidária ou de influência no parlamento. Imagine como seria a História...
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Brasil, 1888. Princesa Isabel relê o texto da Lei Áurea, mas antes de assiná-la é interpelada por um conselheiro que alerta: “Pense nos senhores de escravos, eles perderão direitos adquiridos”. A princesa reflete, põe de lado a pena e rasga o papel. Imagine como seria a História...
Brasil, 2015. Um governante visionário reforma a previdência social enfrentando a dura realidade de que o dinheiro acabou. Propõe, po…

O sapo na panela

(Escrevi este texto na época das eleições de 2014. Distribuí a alguns amigos mas não publiquei. Infelizmente, o pior aconteceu)

Alemanha 1932, Haiti 1957, Cuba 1958, Venezuela 2004, Argentina 2007. O Brasil de 2014 é o saponapanela da vez?
Alemanha de Hitler diminuiu vertiginosamente o desemprego. Maquiou os dados, tirando da base de cálculo judeus e mulheres casadas. O estado de Hitler empregou milhares de pessoas a salários baixíssimos, pois quem não concordava perdia acesso à saúde pública. Hitler tornou-se ultrapopular com a ajuda de um belo marqueteiro e depois revelou-se um assassino sem limites.
François Duvalier elegeu-se no Haiti em 1957, médico percebido como simples e bem intencionado. Tinha o carinhoso apelido de Papa Doc. Em 2 anos, Papa Doc acabou com a oposição, criou uma temida milícia e espalhou panfletos se dizendo Deus. Papa Doc colocou seu filho no poder em regime vitalício.  Quase 60 anos depois, o Haiti é um país paupérrimo, violento e cujo único tecido de ordem é …

O "real" perigo do dólar

Publicado originalmente em 3 de setembro de 2015

Os brasileiros estão assustados – e com razão – com a disparada do dólar frente ao real. O resultado – termos ficado 50% mais pobres em moeda forte em tão pouco tempo – é uma enorme frustração, derretendo a confiança dos agentes econômicos e adiando certos planos para algumas famílias. A causa – o desgoverno do PT e a irresponsabilidade de Lula, Dilma, Mantega e afins na condução da economia – segue presente e por isso não tem havido qualquer alívio no mercado. Orçamento deficitário, críticas a Levy, aumento de impostos, tentativa de reedição do roubo mascarado em CPMF e outros assuntos têm sido abordados diariamente pela mídia e todos seguiremos acompanhando o desenrolar. Por ora, nada tem contribuído para que o real se fortaleça. Há, no entanto, um risco novo neste movimento da moeda: o enorme spread cobrado pelos participantes do mercado de câmbio. Bancos, cartões de crédito e casas de câmbio vêm praticando taxas muito superiores à d…

A foto e o filme

Publicado originalmente em 4 de julho de 2015

O governo FHC consolidou a estabilidade da moeda e institucionalizou o tripé econômico de meta inflacionária, regime de câmbio flutuante e equilíbrio fiscal. Ou seja, trouxe enormes benesses de longo prazo para o Brasil. Certo? Não necessariamente: a foto pode ter sido boa, mas o filme não é. A gestão da economia dos mandatos de FHC, capitaneada por Pedro Malan na Fazenda, atacou o problema fiscal com uma cartilha simples – aumentar impostos para cobrir qualquer rombo. Malan tirou vários esqueletos fiscais do armário, é verdade. Mas aproveitou o ensejo para aumentar grosseiramente os impostos, instituindo um pretenso fiscalismo: gasto mais, mas fecho as contas aumentando as receitas. É o mesmo que o trabalhador jantar todos os dias num restaurante chique e, no fim do mês, conseguir que o patrão aumente seu salário para que termine o mês no azul. Obviamente isso não existe no setor privado, e o fiscalismo de Malan e FHC foi uma falácia que …

Fora, Neymar

Publicado originalmente em 19 de junho de 2015

Colômbia 1, Brasil 0. Resultado normal, e até modesto considerando a péssima atuação da seleção brasileira. Apesar da derrota, Neymar foi o nome do jogo – dessa vez, pelos motivos errados. Neymar portou-se como um moleque mimado, reclamando sem parar, dando empurrões, procurando confusão. Faltou jogar bola. É natural que um atleta de alto nível tenha rendimento baixo esporadicamente, mas o verdadeiro craque e ídolo deve saber conviver com essas situações e aceitá-las. Neymar joga muita bola, mas tem muito que aprender até que possa defender o Brasil com dignidade e respeito; na vitória ou na derrota. O gran finale ocorreu após o apito final, quando Neymar chutou a bola com força sobre um jogador colombiano, instalando a confusão no gramado e depois dando uma cabeçada acintosa em outro adversário. Conseguiu ser expulso depois do fim do jogo. Comportamento ridículo seguido por atitude patética dos demais atletas brasileiros nas entrevistas …

Porque o crime compensa: a matemática do crime

Publicado originalmente em 18 de junho de 2015 Por que as pessoas jogam na mega-sena? Todo mundo – letrado ou não em teoria das probabilidades – sabe que a chance de ganhar é ínfima, então por que gastar dinheiro com um jogo tão negativamente assimétrico? A resposta é simples: porque o prêmio é enorme. Em outras palavras, o evento positivo (mesmo que raríssimo) tem consequências dramáticas – neste caso, o vencedor fica rico. E por que o volume de apostas aumenta quando o prêmio está acumulado há várias semanas? A probabilidade de ganho não se altera, mas as pessoas têm mais propensão a tentar a sorte. O que move as pessoas nesse caso é que o evento de sucesso tem consequências ainda mais extremas – dependendo do prêmio acumulado, o vencedor pode ficar realmente rico por várias gerações. Esta evidência empírica mostra que é a magnitude do evento improvável – e não sua probabilidade – que move as pessoas a aceitar uma assimetria contra si. Se a premiação fosse de cem reais, simplesmente ni…