Saturday, October 17, 2015

Rock In Hell


Passado um mês do início do Rock In Rio 2015, vale uma reflexão sobre esta última edição.

O show do Queen, um dos mais rápidos a ter ingressos esgotados, mostrou que os dinossauros estão vivos. Não é necessário – nas próximas edições – que a organização repita os convites a Metallica, Slipknot, Iron Maiden, Katy Perry e outras figurinhas fáceis por aqui. O Queen mostrou que a música pode vencer o marketing, assim como Bruce Springsteen o fez na edição anterior. Então, quem sabe, possamos ver mais rock e menos Ibope no palco mundo.

Esta edição reacende um antigo debate que acompanha o festival desde a edição de 1991 – a condição de supporting act imposta aos artistas brasileiros. Qual é o sentido de Lulu Santos, nosso maior hitmaker, ter apenas uma hora de show? Não é tempo suficiente nem para a metade das canções que o público sabe de cor. Ou relegar o Angra – referência mundial em heavy metal melódico – ao palco sunset e escalar as irrelevantes Gojira ou Royal Blood para o palco mundo? Se o guitarrista brasileiro Kiko Loureiro vier com o grupo americano Megadeth em 2017, pode dar um nó na cabeça dos organizadores...

No quesito logística, parece que ninguém pensou em nada. Fazer fila para pagar comida/bebida e depois entrar em outra fila para pegar o pedido? Fala sério! Custava instalar quiosques onde o visitante pudesse comprar créditos com seu cartão bancário e depois utilizar para qualquer consumo? Isso facilitaria sobremaneira a logística do atendimento, minimizando as filas. Mas aí não seria Rock In Rio, pois brasileiro adora uma fila, adora uma ineficiência – deve ser por isso.

Fechar as ruas nas imediações? Isso é um acinte, fere o direito de ir e vir dos cidadãos. Pergunta: A cidade-sede do Superbowl fecha as ruas? E o local da final da Champion’s League? E por aí vai. Por que o privilégio do Rock in Rio?

Seria o famoso “criar dificuldade para vender facilidade”? Neste caso, a facilidade era o ônibus “primeira classe”, que não passava de uma lata-velha nem mesmo equipada com banheiro. Por que não exigir do festival a disponibilização de retroárea para estacionamento de dez mil carros e espera de dois mil táxis? Não cabe? Então que o número de ingressos fosse reduzido para compatibilizar escalas de público e de infraestrutura.

E, em se tratando de um evento para mais de 500 mil pessoas, não é razoável exigir que a organização instale banheiros de verdade com ligação na rede de esgoto? Isso se houver rede de esgoto ali no coração da “cidade olímpica...

Mas, sem dúvida, a grande decepção do evento foi a omissão dos artistas brasileiros diante da cleptocracia que assola o Brasil. Onde estão os politizados artistas que, em 1985, subiram ao palco pedindo eleições diretas? Ou aqueles que em várias oportunidades aproveitaram sua exposição para apoiar rasgadamente o PT? Apagou-se a chama política?

Festivais de rock têm em sua gênese as ideias de congregar e protestar, vide Woodstock e a guerra do Vietnã. Neste Rock In Rio, o protesto máximo que se viu foi Roger usando uma camisa que dizia o óbvio (“não sabemos escolher presidente”) e João Barone abrindo a execução de “Que país é esse?” com o brado de que “o Brasil pode dar certo”. Pode mesmo? Com essa turma que está aí? Com esse tipo de conformismo? Com essas oportunidades perdidas de expor a roubalheira que vigora no país diante de milhares de expectadores?

Dinho Ouro Preto, na edição de 2013, fez um discurso direcionado à classe política pelo seu tétrico “conjunto da obra”. Foi de improviso e pouco eloquente, mas emendou colocando um nariz de palhaço e anunciando a canção “Saquear Brasília” – marcou presença e deu o recado. A julgar pelo silêncio dos artistas este ano, conclui-se que a situação do país melhorou bastante nestes dois anos ou que faltou escalar Fábio Júnior no line-up.


A continuar o governo do PT, a edição de 2017 será Rock In Hell... “Se a república começasse agora, se o Brasil fosse nosso outra vez...”

Saturday, October 3, 2015

Imagine


Portugal, 1759. Marquês de Pombal decide extinguir o sistema de hereditariedade das capitanias do Brasil. Prestes a assinar o ato, ouve a ponderação de seu assessor: “Mas a hereditariedade é um direito adquirido de famílias de fidalgos”. Então, o marquês decide voltar atrás e mantém a hereditariedade das terras. Imagine como seria a História...

Brasil, 2015. Um governante corajoso realiza uma reforma ministerial apontando, para cada pasta, a pessoa mais competente para o cargo, independente de filiação partidária ou de influência no parlamento. Imagine como seria a História...

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Brasil, 1888. Princesa Isabel relê o texto da Lei Áurea, mas antes de assiná-la é interpelada por um conselheiro que alerta: “Pense nos senhores de escravos, eles perderão direitos adquiridos”. A princesa reflete, põe de lado a pena e rasga o papel. Imagine como seria a História...

Brasil, 2015. Um governante visionário reforma a previdência social enfrentando a dura realidade de que o dinheiro acabou. Propõe, portanto, o fim de pensões vitalícias e outras benesses descabidas. Determina ainda um teto de benefício de 25 mil reais por CPF. Um tecnocrata alerta que isso ferirá direitos adquiridos, ao que o governante responde: “é a única maneira de consertar, não há dinheiro para manter o status quo, os tempos mudaram e alguém tem que ceder”. Imagine como seria a História...

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Inglaterra, 1984. O sindicato dos mineiros de carvão decide instalar uma greve, protestando contra a redução de subsídios governamentais ao setor e decorrente fechamento de minas improdutivas. Margaret Thatcher enfrentava a situação com posição irredutível, lastreada na necessidade de tornar o setor eficiente e de enfraquecer os movimentos sindicais. Thatcher capitula quando alguns mineiros decidem fazer greve de fome, acata as demandas do sindicato e mergulha o país em uma década de ineficiência.Imagine como teria sido a História...

Brasil, 2015. A greve dos correios é enfrentada com firmeza pelo governo, que decide demitir funcionários, privatizar a empresa e abrir o setor para a livre competição. Alguns anos depois, os brasileiros contam com serviço de qualidade, com suas encomendas sendo entregues e recebidas em poucos dias, sem danos ou extravios. O fundo de pensão da empresa é saneado com a nova gestão. Imagine como seria a História...

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EUA, 1981. Os Estados Unidos enfrentam inflação de dois dígitos e déficit orçamentário. Ronald Reagan propõe um plano de corte de impostos, visando o aumento da eficiência produtiva e criação de empregos, com a visionária ambição de que o crescimento do país, o fortalecimento do mercado de capitais e a retomada da economia curariam as contas públicas no longo prazo. Os tecnocratas de plantão alertam: “teremos piora do déficit nos próximos anos”. O parlamento derruba o plano e, ao contrário, aprova no parlamento novos impostos paliativos, visando um pequeno superávit no curto prazo. A decisão mostra-se equivocada, inibindo investimentos e sucateando a economia americana pelas duas décadas seguintes. Imagine como seria a História...

Brasil, 2015. Os ministros da Fazenda e do Planejamento recompõem a credibilidade do país anunciando um amplo corte de custos, além de uma agenda de redução de impostos e simplificação do sistema tributário. A economia volta a crescer fortemente e o mercado vislumbra duas décadas virtuosas para realizar investimentos no país, a despeito de um déficit fiscal de curto prazo. Imagine como seria a História...

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Venezuela, 2004. A oposição consegue aprovar uma consulta popular para votar a interrupção do mandato de Hugo Chávez, presidente que contava com um índice de aprovação baixo. O pleito ocorre sem fraude e Chávez é removido do cargo, sendo substituído por um governante que devolve a democracia ao país, restabelece o império da lei e o respeito à propriedade privada, trazendo esperança no lugar de miséria. Imagine como seria a História...

Brasil, 2015. Uma oposição aglutinada em prol do bem do país consegue convocar um referendo para consultar a população sobre a permanência ou não de Dilma no poder, visto seu índice de aprovação de apenas 7%. O pleito ocorre sem fraude e a presidente é removida de seu posto com uma derrota esmagadora. Imagine como seria a História... 

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Imagine criar seus filhos numa sociedade melhor. Imagine tocar o seu negócio num regime tributário simples e medido. Imagine viver num país onde seus impostos são usados de forma honesta e eficiente na prestação de serviços públicos. Imagine viver numa sociedade onde o crime não compense.

You may say I’m a dreamer, but I’m not the only one…


O sapo na panela

(Escrevi este texto na época das eleições de 2014. Distribuí a alguns amigos mas não publiquei. Infelizmente, o pior aconteceu)

Alemanha 1932, Haiti 1957, Cuba 1958, Venezuela 2004, Argentina 2007. O Brasil de 2014 é o sapo na panela da vez?

Alemanha de Hitler diminuiu vertiginosamente o desemprego. Maquiou os dados, tirando da base de cálculo judeus e mulheres casadas. O estado de Hitler empregou milhares de pessoas a salários baixíssimos, pois quem não concordava perdia acesso à saúde pública. Hitler tornou-se ultrapopular com a ajuda de um belo marqueteiro e depois revelou-se um assassino sem limites.

François Duvalier elegeu-se no Haiti em 1957, médico percebido como simples e bem intencionado. Tinha o carinhoso apelido de Papa Doc. Em 2 anos, Papa Doc acabou com a oposição, criou uma temida milícia e espalhou panfletos se dizendo Deus. Papa Doc colocou seu filho no poder em regime vitalício.  Quase 60 anos depois, o Haiti é um país paupérrimo, violento e cujo único tecido de ordem é sustentado pelo exército brasileiro.

Fidel Castro comandou guerrilheiros cubanos contra o desgoverno de Fulgêncio Batista. Foi, aos poucos, ganhando apoio da população. Depois de tomar o poder, revelou sua verdadeira agenda opressora: confiscou propriedades, fuzilou inimigos e quase detonou uma 3ª guerra mundial no episódio dos mísseis soviéticos. Doente, Fidel alçou seu irmão ao poder. Cuba segue isolada do mundo moderno, paupérrima e desesperançosa. Cuba proíbe seus cidadãos de ir e vir, levando muitos a arriscar a vida em botes ou a nado para tentar chegar aos EUA, sendo que fuzila os que forem capturados na fuga.

Hugo Chávez tentou o golpe de estado em 1992, fracassou. Elegeu-se em 1998 e tomou para si o país – mudou a constituição duas vezes, pilhou a companhia petrolífera estatal, conduziu eleições suspeitas de fraudulentas e perseguiu seus opositores. Chávez perseguiu a iniciativa privada, fechou jornais e TVs, reestatizou empresas e trouxe miséria e desesperança. Abençoou seu sucessor, este menos carismático e com a infelicidade de enfrentar um cenário menos favorável para o preço do petróleo, única riqueza produzida num país sucateado.

Néstor Kirchner manipulou dados de inflação com controle de preços, demonizou o FMI, rasgou contratos, aumentou benefícios previdenciários com recursos de que não dispunha e criou crescimento artifical. Também ungiu seu sucessor, sua esposa Cristina em 2007. A pupila estendeu a cartilha populista, saqueando empresas privadas (inclusive a operação da Vale na Argentina) e ampliando programas assistenciais. Cristina perseguiu vários órgãos de imprensa, inclusive impedindo fornecimento de papel a certos jornais.

Hitler manipulou dados. IBGE e Ipea foram obrigados a mudar suas metodologias de cálculo para mostrar dados favoráveis ao PT. Alguma semelhança? Lula já elogiou Hitler e seu “fogo” em perseguir suas ideias em uma longínqua entrevista de 1979. Também elogiou a revolução do Irã, que instalou um regime extremista no poder. Hoje, Dilma discursa na ONU defendendo diálogo com o Estado Islâmico, os cortadores de cabeças de inocentes civis.

Papa Doc intitulou-se Deus. Lula proclamou-se mais popular que Jesus Cristo e afirmou que teria descoberto o Brasil se fosse vivo antes de Cabral. Assim como Papa Doc, Lula ungiu seu poste sucessor. Tal qual Papa Doc, Lula não se esqueceu de seu filho Lulinha, também agraciado com polpudas benesses.

Seguindo a experiência chavista com a PDVSA, o PT pilhou a Petrobrás, tornando-a conta corrente do partido. Assim como Chávez e Kirchner, o PT não mede esforços para diminuir o papel da imprensa, distribui mesadas assistencialistas aos borbotões e depende da sistematização da pobreza para se manter popular – por isso, odeia a classe média, como declara ruidosamente Marilena Chauí. Odeia a esperança.

Como estes povos foram tão cegos a tudo que acontecia? É o efeito do sapo na panela. Quando o sapo pula numa água fervendo, ele sente dor e foge. Quando o sapo está numa panela com água morna que vai sendo aquecida, não percebe a trajetória da temperatura e morre cozido. Os ditadores sabem disso e, não por acaso, são todos lobos em pele de cordeiro.

O Brasil em 2013 vive uma encruzilhada. O ódio destilado pelo PT na campanha mostra que, para eles, o fim justifica os meios. E, se o PT ganhar a eleição, será por margem apertada, o que é um tanto pior pois acelerará uma agenda opressora no próximo mandato. Não correrá novamente o risco de perder uma eleição, isso se houver outra eleição.

O Brasil tem a chance histórica de demitir os simpatizantes de ditadores nas urnas, sem bala, sem morte. O Brasil tem a chance de derrotar a propaganda nazista, que repete uma mentira mil vezes até que o povo acredite nela. O Brasil tem a chance de manter a preciosa alternância de poder. O Brasil tem a chance de preservar suas instituições, de dar uma esperança às gerações futuras. Enfim, uma chance de preservar a democracia, conquistada a duras penas. Chance não deve ser desperdiçada.

Marco zero

Pronto!

Postei todos os textos que saíram em outros blogs desde o "Vergonha". Agora, vida nova... será? Com o Brasil do jeito que anda, vida velha.


O "real" perigo do dólar

Publicado originalmente em 3 de setembro de 2015

Os brasileiros estão assustados – e com razão – com a disparada do dólar frente ao real. O resultado – termos ficado 50% mais pobres em moeda forte em tão pouco tempo – é uma enorme frustração, derretendo a confiança dos agentes econômicos e adiando certos planos para algumas famílias. A causa – o desgoverno do PT e a irresponsabilidade de Lula, Dilma, Mantega e afins na condução da economia – segue presente e por isso não tem havido qualquer alívio no mercado.
Orçamento deficitário, críticas a Levy, aumento de impostos, tentativa de reedição do roubo mascarado em CPMF e outros assuntos têm sido abordados diariamente pela mídia e todos seguiremos acompanhando o desenrolar. Por ora, nada tem contribuído para que o real se fortaleça.
Há, no entanto, um risco novo neste movimento da moeda: o enorme spread cobrado pelos participantes do mercado de câmbio. Bancos, cartões de crédito e casas de câmbio vêm praticando taxas muito superiores à do mercado spot. Nada que não tenhamos visto no passado, mas desta vez há um tempero especial que torna a prática mais preocupante…
… O IOF em operações de câmbio – com a idiótica alíquota instituída há alguns anos para proteger nossa balança de pagamentos da valorização acentuada do real (veja você, leitor!) – permanece vigorando. Isso mesmo, nesta crise cambial vigora uma tributação cujo objetivo é evitar que o real se fortaleça muito. Ou seja, o governo é o primeiro a incentivar o spreadentre o câmbio oficial e o câmbio ao qual os agentes conseguem converter seus reais em dólares. Esse efeito é cumulativo, e ao final da cadeia o câmbio efetivo é 20% superior ao spot, nível bastante preocupante.
A existência do IOF sobre operações de câmbio ataca frontalmente a ideia de conversibilidade da nossa moeda e do livre fluxo de capitais, uma vez que a alíquota pode ser elevada intempestivamente resultando em tributação abusiva de patrimônio (leia-se confisco) para aqueles que desejem migrar parte de sua poupança para moeda forte. Portanto, é natural que – nesta agenda extemporânea de aumentar impostos em meio a uma recessão – os participantes do mercado queiram acumular dólares “enquanto o IOF é só 6.38%”, pensam. Gera-se uma espiral viciosa.
O perigo de termos duas, três ou mais taxas de câmbio concomitantes remete aos sombrios anos 80, quando o “black” negociava com prêmio de 100% sobre o “oficial”, e quando era necessário apresentar bilhete de viagem internacional para comprar dólares no preço spot, ainda que em volume limitado. Este tipo de configuração destrói qualquer credibilidade acerca do valor da moeda local, prejudicando poupança interna e comércio internacional, e ajudando a enterrar de vez a economia. Basta ver o que aconteceu na Venezuela e na Argentina.
O “black” Argentino tem o eufemístico nome de “blue”, e o ágio do dólar neste mercado paralelo mantém-se em 50% ou mais, flertando com níveis mais altos em momentos de incerteza. A situação na Venezuela – com sistema de três câmbios e  zero de liberdade social /econômica – é tão periclitante que nem há uma cor que possa apelidar apropriadamente o mercado negro: o dólar papel vale mais do que 100 vezes o dólar oficial. O governo prepara novas cédulas de bolívares, já que a maior delas atualmente em circulação compra apenas 14 centavos de dólares no mercado negro.
É imperativo que o governo elimine a incidência de IOF nas operações de câmbio de uma vez por todas. A mensagem deve ser que o governo tem confiança em sua moeda, em sua capacidade de preservar o poder de compra do (baixo) estoque de poupança do país. Não se trata de zerar a alíquota, mas sim de extinguir o tributo. Sonho distante? Provavelmente, já que cortar impostos e/ou gastos não está na agenda de nenhum governo que tenha passado por estas terras tupiniquins.
Idealmente, permitir-se-ia a qualquer cidadão brasileiro a abertura de contas denominadas em dólares ou euros nos bancos comerciais, com o câmbio sendo efetuado às cotações oficiais. Desta forma, o poupador teria acesso à conversibilidade ao preço spot da moeda estrangeira, mas correndo o risco do câmbio flutuante e da saúde financeira do banco escolhido. Perdemos a chance de fazer este movimento no boomdas commodities e agora isso parece um sonho distante… mais um…
Quem sabe, no entanto, tudo isso seja pura bobagem, apenas o desejo de um observador “coxinha” que quer garantir sua viagem anual a Miami a um custo módico. Afinal, Argentina e Venezuela estão bombando!

A foto e o filme


Publicado originalmente em 4 de julho de 2015

O governo FHC consolidou a estabilidade da moeda e institucionalizou o tripé econômico de meta inflacionária, regime de câmbio flutuante e equilíbrio fiscal. Ou seja, trouxe enormes benesses de longo prazo para o Brasil. Certo? Não necessariamente: a foto pode ter sido boa, mas o filme não é.
A gestão da economia dos mandatos de FHC, capitaneada por Pedro Malan na Fazenda, atacou o problema fiscal com uma cartilha simples – aumentar impostos para cobrir qualquer rombo. Malan tirou vários esqueletos fiscais do armário, é verdade. Mas aproveitou o ensejo para aumentar grosseiramente os impostos, instituindo um pretenso fiscalismo: gasto mais, mas fecho as contas aumentando as receitas. É o mesmo que o trabalhador jantar todos os dias num restaurante chique e, no fim do mês, conseguir que o patrão aumente seu salário para que termine o mês no azul. Obviamente isso não existe no setor privado, e o fiscalismo de Malan e FHC foi uma falácia que passou ao largo da imprensa especializada.
De forma a garantir o aumento de receitas, Malan e sua equipe informatizaram a arrecadação, tornando a secretaria da receita federal extremamente eficiente. Criaram, de fato, uma máquina de coletar impostos.
As estatísticas diferem conforme fonte e metodologia, mas durante a gestão FHC, a carga tributária aumentou de  aproximadamente 28% do PIB para cerca de 33%. Mesmo considerando que parte disso veio da redução da evasão fiscal – fruto da maior eficiência na arrecadação – trata-se de uma enormidade. Deveríamos ter tido um upgrade nos serviços públicos para níveis nórdicos, mas infelizmente isso não aconteceu.
Os mais otimistas poderiam seguir argumentando que a foto era boa. Afinal, o equilíbrio fiscal era necessário.
Mas o filme é péssimo. Malan notabilizou a noção de que disciplina fiscal é aumentar impostos. Com sua credibilidade, tornou auspicioso ao mercado o fatídico entendimento de que aumentar o tamanho do estado é o caminho para a estabilidade. Errado! O estado deve ter o menor tamanho possível para prestar os serviços que lhe cabem: educação, saúde e segurança.
A foto virou filme, e o fato é que os sucessores de Malan – Palocci e Mantega – abraçaram a fórmula de “fiscalismo com o dinheiro dos outros” e fizeram uso prolífico dela. Na era PT, atingimos arrecadação de cerca de 37% do PIB e ainda não paramos.
O filme fica ainda pior, pois outro legado da era FHC foi a emenda da reeleição. O esforço para aprová-la comprometeu a pauta do Congresso e a aprovação de reformas que eram urgentes e que, até hoje, patinam na agenda política. FHC teve que fazer concessões a diversas bancadas para angariar apoio à reeleição, comprometendo capital político e dotação orçamentária. Conseguiu. Mas, no desenrolar do filme, quem mais se beneficiou do instrumento da reeleição foi o PT…
O governo de FHC também nos deixou a Lei de Responsabilidade Fiscal. Na foto era uma formosura, pois limitava os gastos de municípios, estados e união. Quando virou filme, foi um desastre: os políticos brasileiros não são afeitos a cortar desembolsos, especialmente tendo recebido o presente de poderem concorrer à reeleição enquanto controlam a máquina pública. Com a vigência da Lei de Responsabilidade Fiscal, a saída para fazer frente a esta nova “necessidade orçamentária” foi… aumento de impostos!
A sinopse do enredo é: FHC criou uma máquina arrecadadora e a entregou para o PT, que soube usá-la para financiar programas de transferência de renda e se reeleger duas vezes com base neles. Filme de terror…
Hoje, com Levy, o país enfrenta mais um ajuste fiscal, novamente sendo conduzido com a fórmula de aumentar impostos. Vamos novamente pelo caminho errado, aumentando um estado que já ultrapassou o status de paquidérmico. Estamos assistindo ao governo ter níveis altíssimos de tributação sem conseguir poupar ou investir em infraestrutura, à classe média ser destruída com a compressão de renda discricionária e, no fim da linha, ao Banco Central aumentar juros sem que haja inflação de demanda. A economia está congelada: aumentar impostos neste momento é o mesmo que pegar um paciente com falta de ar e tapar-lhe nariz.
Não se engane, leitor: a recente queda na arrecadação deve-se à retração da economia. O apetite arrecadador do governo em nada arrefeceu.
O Brasil precisa viver seu momento supply-side, seu plano Reagan. O caminho é cortar impostos, reduzir a arrecadação de curto prazo e as despesas do governo. No nosso caso, isso seria bastante benéfico, obrigando uma racionalização do escopo dos planos sociais e o redimensionamento das despesas correntes do governo. E, no médio e longo prazos, colheríamos os bons frutos. Teríamos novamente um ambiente viável para investimento, inovação, produção e trabalho, sem que o governo seja sócio majoritário em tudo.
Muda o filme, Levy!

Fora, Neymar

Publicado originalmente em 19 de junho de 2015

Colômbia 1, Brasil 0. Resultado normal, e até modesto considerando a péssima atuação da seleção brasileira. Apesar da derrota, Neymar foi o nome do jogo – dessa vez, pelos motivos errados.
Neymar portou-se como um moleque mimado, reclamando sem parar, dando empurrões, procurando confusão. Faltou jogar bola. É natural que um atleta de alto nível tenha rendimento baixo esporadicamente, mas o verdadeiro craque e ídolo deve saber conviver com essas situações e aceitá-las. Neymar joga muita bola, mas tem muito que aprender até que possa defender o Brasil com dignidade e respeito; na vitória ou na derrota.
gran finale ocorreu após o apito final, quando Neymar chutou a bola com força sobre um jogador colombiano, instalando a confusão no gramado e depois dando uma cabeçada acintosa em outro adversário. Conseguiu ser expulso depois do fim do jogo.
Comportamento ridículo seguido por atitude patética dos demais atletas brasileiros nas entrevistas pós-jogo. Daniel Alves e Willian culparam “os árbitros” pela atitude de Neymar, pois “apanha muito” e os árbitros são supostamente lenientes. Trata-se de uma desculpa infame que corrobora o insidioso culto à personalidade que impera no Brasil.
Neymar e seus companheiros acharem que ele está acima da regra – por qualquer motivo esdrúxulo que seja – é análogo a Lula comparar sua popularidade à de Jesus Cristo. É o PT de Dilma, Dirceu e demais mensaleiros e petroleiros julgar-se onipotente e saquear a Petrobrás e tudo o mais que aparece pela frente no erário público. É o mesmo culto à personalidade que elevou Eike Batista à condição de celebridade e custou muito dinheiro ao pequeno investidor. É a prática pervasiva da idolatria do medíocre que catapulta à fama Kim Kardashian, Paris Hilton e outras invenções vazias. Temos as nossas Anittas e tantos MCs para contribuir à lista também.
Na Copa do Mundo de 2014, Neymar causou comoção no país ao se contundir na partida contra a mesma Colômbia. Seu “drama” mobilizou a mídia e as redes sociais. Na partida seguinte, os jogadores brasileiros entraram em campo fazendo um ridículo gesto que, diz-se, representa uma gíria comumente usada por nosso “ídolo”. Não houve luto, minuto de silêncio ou qualquer declaração da delegação brasileira sobre a professora que havia poucos dias tinha morrido no desabamento de um viaduto em Belo Horizonte, uma das obras do “legado” da Copa do Mundo. Dá-lhe culto à personalidade, olé!
A risível justificativa dos demais atletas brasileiros endossa o comportamento condenável de Neymar. A atitude é análoga à letargia de aceitar que Lula e Dilma “roubam igual aos outros”. É o mesmo que Dilma e  lideranças do PT tentarem eufemizar os crimes de seus correligionários como “malfeitos”. É a tentativa de justificar o insofismável. É deboche. É querer ganhar no grito. Quem perde é a sociedade – o trabalhador, o empresário, o contribuinte, estes não ganham no grito, e estes são o tecido social.
Nesta semana, o Golden State Warriors venceu a NBA, liga de basquete profissional dos Estados Unidos. Venceu pelo conjunto, pelo trabalho de equipe. Andre Iguodala, originalmente um reserva, obteve o título de MVP (most valuable player) da série decisiva. Os Warriors venceram o time de LeBron James, considerado o melhor jogador de basquete em atividade. LeBron não deu cabeçada, não reclamou e não esperneou – ao contrário, pouco antes de a partida terminar, cumprimentou Stephen Curry do time adversário congratulando-o pelo título já sacramentado no placar.
O culto à personalidade flexibiliza o conceito de que as regras valem para todos. Lula declarou há alguns anos que José Sarney não se tratava de “uma pessoa comum”, preconizando um tratamento diferenciado ao ex-senador nas investigações em andamento à época. O mau exemplo vem de cima, e culmina no “você sabe com quem está falando?” na fila do restaurante ou do aeroporto.
No mundo do futebol, isso não é de hoje. Quem não se lembra da muamba trazida pela delegação brasileira campeã da Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos? À época, os jogadores ameaçaram não desfilar em carro aberto se fossem taxados como cidadãos “comuns”. O governo cedeu.
O efeito mais nocivo desta relativização é criar espaço para o surgimento de regimes totalitários e lideranças messiânicas. Hitler, Mussolini, Papa Doc, Fidel, Chávez, e tantos outros ditadores ilustram o ponto.
É hora de dizer não ao relativo: todos são iguais perante a lei. Viva o cidadão comum, viva a sociedade.
Fora, culto à personalidade. Fora, Neymar.
(P.S. Por algum motivo estranho, Neymar apareceu no segundo tempo sem a faixa preta na manga da camisa, usada pelo escrete brasileiro em luto à morte de Zito, jogador campeão do mundo em 1962. Deve explicação.)

(Publicado originalmente em http://terracoeconomico.com.br/fora-neymar/  e também em http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/cultura/fora-neymar/  e    http://www.institutoliberal.org.br/blog/fora-neymar/)

Porque o crime compensa: a matemática do crime

Publicado originalmente em 18 de junho de 2015
Por que as pessoas jogam na mega-sena? Todo mundo – letrado ou não em teoria das probabilidades – sabe que a chance de ganhar é ínfima, então por que gastar dinheiro com um jogo tão negativamente assimétrico? A resposta é simples: porque o prêmio é enorme. Em outras palavras, o evento positivo (mesmo que raríssimo) tem consequências dramáticas – neste caso, o vencedor fica rico.
E por que o volume de apostas aumenta quando o prêmio está acumulado há várias semanas? A probabilidade de ganho não se altera, mas as pessoas têm mais propensão a tentar a sorte. O que move as pessoas nesse caso é que o evento de sucesso tem consequências ainda mais extremas – dependendo do prêmio acumulado, o vencedor pode ficar realmente rico por várias gerações.
Esta evidência empírica mostra que é a magnitude do evento improvável – e não sua probabilidade – que move as pessoas a aceitar uma assimetria contra si. Se a premiação fosse de cem reais, simplesmente ninguém perderia tempo com loteria. No entanto, quando o prêmio é de alguns milhões, muitos jogam. E, quando a bolada é de cem milhões, mesmo os mais céticos arriscam um palpite.
A recente alta nos índices de crimes violentos motivou a reabertura do debate sobre maioridade penal e reacende a preocupação da sociedade ordeira acerca da impunidade. Contudo, a discussão não progride e não traz benefícios à sociedade pois ninguém parece olhar o problema sob a ótica do criminoso real ou potencial.
Felizmente, em toda sociedade, a maioria dos indivíduos – por força de índole – sequer considera a possibilidade de viver no crime qualquer que seja a distribuição de probabilidades. Há outros que sofrem de distúrbios psicológicos e cujo comportamento também independerá do arcabouço punitivo. Portanto, a discussão deve se centrar na faixa de cidadãos que – consciente ou inconscientemente – escolhem o seu caminho conforme a atratividade matemática da vida no crime em comparação à vida ordeira.
A vida criminosa pode ou não ser lucrativa, mas certamente oferece um atrativo de curto-prazo: basta o sujeito optar por este caminho e já pode iniciar sua carreira. Ao contrário da trajetória de estudo e trabalho, que requer dedicação e resiliência. Portanto, para aqueles cuja índole lhes permite ponderar sobre esta escolha, a vida ordeira já possui uma desvantagem inicial na comparação.
A maneira de corrigir a equação em prol da ordem é piorar (sob a ótica do criminoso) a combinação entre duas variáveis: a chance de o bandido ser pego e a magnitude da punição. Observe o leitor que há duas etapas, trata-se de um evento combinado – captura e punição.
A probabilidade de captura de um criminoso é análoga à chance de acertar os números na mega-sena. Ou seja, não é o principal fator que motivará a escolha do indivíduo, não é o que leva o indivíduo indeciso a apostar, não é o que dissuade o criminoso potencial. Por outro lado, a severidade da punição equivale ao volume de premiação no exemplo da loteria e, esta sim, é uma variável determinante na decisão.
Em outras palavras, gastar dinheiro aumentando o policiamento – sem entrar no mérito da eficiência de como isso é feito – é uma maneira ineficaz de combater o crime no longo prazo. No limite, se a expectativa de punição para o bandido capturado for nula, o policiamento tem efeito zero. Se a punição for branda, o bandido capturado volta para as ruas rapidamente, não só tornando inócua a captura mas também ratificando a percepção de que sua opção pelo crime foi acertada. A conclusão matemática do dilema é o tradicional “o crime compensa”, e à medida que o tempo passa, mais e mais bandidos “nascem”, motivados pela comprovada atratividade da equação.
Chega-se, portanto, ao cerne da questão da maioridade. Para um “de menor”, a lei garante que a punição é branda ou inexistente. O menor pode pegar em armas, matar, estuprar, sequestrar e é inimputável. Por que estudar se a lei lhe garante uma assimetria extremamente favorável ao optar pela vida no crime?
A solução – passe ela ou não pela redução da maioridade penal – é ter punições mais severas, para menores e para maiores. Um tanto melhor se as polícias conseguirem aumentar a chance de captura de criminosos. Mas, de novo, o cerne da questão é incrementar a magnitude do evento negativo, aumentar a severidade, a eficiência e a rapidez da punição. A punição tem que ter um custo (para o bandido) muito superior ao lucro que poderia auferir com anos de bandidagem.
As políticas públicas de “tolerância zero” funcionaram em todos as cidades onde foram implementadas com firmeza e urgência. Nova Iorque é o exemplo mais conhecido, em alguns anos a cidade que era perigosa tornou-se um lugar seguro. A prefeitura adotou um sistema onde qualquer pequeno delito – urinar na rua, pular a roleta do metrô, pichar o muro – era punido, na maioria dos casos com abertura de ficha policial e encarceramento, mesmo que por algumas horas ou por uma noite. O efeito é que a população consegue visualizar que os delitos são efetivamente punidos, a punição constrange o meliante perante familiares e amigos e a equação matemática passa a penalizar a atividade criminosa. Não é uma “moda que pega”, e sim a constatação gradual de que há punição firme e, portanto, o dilema deve ser reponderado.
E os direitos humanos? E as vítimas da sociedade? Este é um argumento hipócrita, pois – salvo casos de distúrbio, como já mencionado – o cidadão que comete um crime fez uma escolha e exerceu seu livre arbítrio. Ele deve ter direito à sua integridade física e mental, investigação e julgamentos conforme o processual previsto em lei, mas não deve ser poupado da punição cabível. Em qualquer outro arranjo, as vítimas da sociedade passam a ser os cidadãos de bem, aqueles que pagam impostos e que contribuem para o crescimento da economia o que, por sua vez, financia os programas sociais.
Proteger os direitos humanos do menor abrandando ou eliminando sua punição é criar perversas assimetrias. A primeira delas é atribuir um valor maior à vida de um menor delinquente do que à vida de um cidadão de bem, ou de vários deles que podem ser vitimados por um único menor. A segunda é conceder um salvo-conduto, um período de carência para bandidos menores, criando uma equação extremamente lucrativa no curto prazo para jovens criminosos, levando-os a abandonar os estudos. E, finalmente, cria uma vantagem para os chefões do crime em arregimentar crianças e menores para seus exércitos, pois a vida útil deste contingente está garantida até que a maioridade penal seja atingida. É o “prende e solta”, como bem colocou um policial há poucas semanas.
Cabe notar que não é privilégio das classes sociais mais baixas perceber a assimetria que existe hoje no Brasil. Tome-se o recente exemplo do jovem “desajustado” de classe alta que feriu três pessoas numa festa em sua casa e depois se retirou para dormir. O jovem tinha sete (!) passagens anteriores pela polícia. Será que se houvesse sido seriamente punido por alguma delas seguiria com comportamento “desajustado”? Cinicamente: teria ele cometido estes “desajustes” nos Estados Unidos? Ou: teria a quadrilha de traficantes de classe média recentemente presa no Rio de Janeiro existido na Indonésia?
Os brasileiros ficam sempre muito impressionados em algumas cidades da Europa, onde pode-se andar de trem ou ônibus e não há qualquer conferência se o bilhete foi realmente pago. Por que as pessoas pagam, se a chance de serem pegas é mínima? Porque a punição e o constrangimento são relevantes para aqueles que são descobertos. Depois de décadas vivendo esta assimetria desfavorável ao delito, a frequência de calotes cai a quase zero e a sociedade evolui. Este modelo virtuoso aplicado para pequenos delitos, para crimes de maior relevância e para gestão pública e levado a cabo de forma contínua é que leva as sociedades a atingirem um nível de civilidade privilegiado.
Lamentavelmente, no Brasil, tudo funciona às avessas. O mau exemplo de punição vem de cima:  petrolão, mensalão, e outros tantos escândalos. Demoram a ser julgados e, nos raros casos de condenação, a Justiça perdoa, concede prisão domiciliar, abranda a pena. As cortes brasileiras têm sancionado a velha máxima “o crime compensa”.
Para piorar, nossos parlamentares se esquecem de que todo o poder emana do povo. Dado que pesquisas indicam que mais de 80% da população defende a redução da maioridade penal, este assunto (e outros, como a pena de morte) deveria ser prioridade na pauta e não deveria esperar que mais sangue inocente fosse derramado para ser apreciado e debatido com seriedade e sem ideologias oportunistas.
Pobres de nós, vítimas da sociedade.

Rio 450: Maioridade?


Publicado originalmente de 2 de março de 2015
Quando uma cidade e sua sociedade atingem a maioridade?  Provavelmente, a resposta varia caso a caso, conforme fatores culturais, econômicos, geográficos, dentre outros. No caso do Rio de Janeiro, aos 450 anos a cidade parece longe de atingir maioridade.
Não atingimos maioridade penal. A impunidade reina na cidade – no trânsito, nos bairros ricos, nas comunidade mais pobres, nos pequenos delitos e jeitinhos, em todos os cantos. Desde o vaga certa que não emite o talão, ao trombadinha que furta bicicletas, ao bandido que sequestra uma médica num shopping de classe alta, ao assassino que tira a vida de um turista. O Carnaval, símbolo da cidade, agora tem até patrocínio de ditadura.
Não atingimos maioridade na cidadania. O carioca que fica chocado com o noticiário policial é o mesmo que avança o sinal no rush matinal para economizar meio minuto e, com isso, arrisca atropelar um ciclista. O cidadão que reclama do motorista imprudente é o mesmo que picha o muro emporcalhando a cidade. O sujeito que repudia a pichação é o mesmo que bloqueia um cruzamento. O carioca é o crítico complacente. É o jovem que fala mal dos colegas mas não enxerga seus defeitos.
Aos 450 anos, precisamos multar aqueles que jogam lixo na rua. Precisamos pedir às pessoas que não urinem nas calçadas. Desarrumamos nosso próprio quarto e nos recusamos a fazer nossa cama. Somos crianças mal-educadas.
Aos 450 anos, tentamos melhorar o trânsito com o paliativo da inversão de mão, algumas delas com mais de 30 anos de idade, alheias ao fato de que a cidade teve outros eixos de expansão. Somos o adolescente que posterga compromissos julgando ter todo o tempo do mundo à disposição.
Aos 450 anos, nossa solução de transporte em massa é risível – Criar uma pista de ônibus-rápidos, mas subtraindo uma pista regular de rodagem. Tapar o sol com a peneira não é condizente com maioridade.
As cidades europeias têm obras públicas que servem a população há mais de 450 anos. No Rio de Janeiro, o asfalto é trocado a cada dois anos. Os Jogos Panamericanos que sediamos não deixaram um legado sequer, idem a Copa do Mundo. Estamos engatinhando no que tange planejamento de longo prazo.
Carlos Lacerda construiu o Túnel Rebouças e o Aterro do Flamengo. A sociedade carioca à época julgava os projetos desnecessários. Mostra que somos curto-prazistas tal como crianças pequenas com medo da injeção.
No “Rio 40 graus”, temos transporte coletivo sem ar condicionado. Temos ainda fios de eletricidade voando pelas nossas cabeças. Temos uma expansão desordenada das comunidades. Temos plano urbanístico sem nexo algum, que permite popular uma mesma rua com prédios altos, baixos, gordos, magros, das mais variadas cores. Caos e carnaval.
Também não atingimos maioridade política. O Rio de Janeiro, tido como cidade de vanguarda intelectual, ajudou a reeleger um governador com imensa votação em primeiro turno para, pouco tempo depois, acampar em frente à sua residência pedindo seu afastamento. E, num zigue-zague de humor infantil, logo em seguida reelegeu um sucessor untado por ele.
O Rio de Janeiro, tido como tão politizado, foi fator decisivo para reeleger a atual presidente. O carioca, tal qual uma criança na pré-escola, acreditou em conto de fadas – endossou o “progressismo” do PT e, agora, apenas cinco meses depois, revolta-se com a dura realidade: juros ascendentes, conta de luz exorbitante, escândalos de corrupção e outros “malfeitos”. A criança contrariada dará sua resposta na manifestação de 15 de Março, do alto dos seus 450 anos.
O Rio de Janeiro e o Brasil jamais atingirão a maioridade enquanto não houver apreço pela vida. Aqui, mata-se por qualquer coisa. Aqui, mata-se rápido e mata-se devagar. O assaltante  impune e o político que desvia verbas da educação. O motorista irresponsável e o saneamento público precário. A interrupção da esperança num tiro e a desesperança ininterrupta. O pobre e o rico.
Nossos 450 anos serão comemorados com língua-de-sogra e guaraná.

(Publicado originalmente em http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/cultura/rio-450-maioridade/)

Brasil, pátria arrecadadora

Publicado originalmente em 31 de março de 2015

Época de declaração de imposto de renda, onde fica evidente que o slogan escolhido para o segundo mandato de Dilma Roussef é uma piada de mau gosto: “Brasil, pátria educadora”. Faltou combinar com o fisco.
A regra do imposto de renda para o ano-calendário 2014 permite ao contribuinte pessoa física deduzir suntuosos R$ 3375,83 por dependente a título de despesas de instrução. Como a pátria educadora não oferece escola para todos, recai majoritariamente sobre a iniciativa privada o ônus financeiro de prover educação a crianças e jovens. Nosso generoso governo estima que com cerca de R$ 281 mensais é possível fazê-lo. Seria interessante que o MEC apontasse nos resultados do ENEM as escolas particulares cujas mensalidades fossem compatíveis com o limite de dedução do IRPF. Não deve dar muito trabalho.
O conceito de instrução à luz do fisco é curiosamente míope. Não se admitem, por exemplo, deduções com cursos de idiomas. Há restrições em relação a deduções com instrução no exterior. Ou seja, o fisco desincentiva as famílias a dar a seus filhos cultura e educação cosmopolitas. A mediocridade parece ser o objetivo subliminar.
A tributação do material escolar é um capítulo à parte. Vários estudos apontam que mais de 50% do custo final do material escolar – livros didáticos e artigos de papelaria – são impostos. Pior, ainda permite-se no Brasil a publicação de livros-texto que solicitam ao aluno completar determinados exercícios nas suas próprias páginas, inutilizando o volume para as turmas futuras. E, não obstante, a despesa com aquisição de livros didáticos não pode ser deduzida do imposto de renda. É difícil imaginar uma configuração mais ineficiente.
Se a fotografia é risível, o filme é desesperador. As despesas com educação têm experimentado inflação superior a 10% ao ano de forma persistente. No entanto, a tabela de dedução do imposto de renda é atualizada a taxas muito mais modestas. Mais alguns anos e a dedução permitida pelo fisco será inferior ao custo da merenda escolar do ano letivo.
Num país em que há uma premente necessidade de maior qualificação de mão-de-obra, os incentivos fiscais ainda miram para o lado errado. O regime tributário sobreonera o educação privada diminuindo a probabilidade de termos maior competitividade nas futuras gerações. Incentivo errado, resultado desastroso.
A renúncia fiscal necessária para desonerar a educação privada é um dos investimentos públicos de maior retorno esperado no longo prazo. Torçamos para que a pátria educadora tenha coragem de fazê-lo o mais breve possível.​


(Publicado originalmente em http://www.institutoliberal.org.br/blog/brasil-patria-arrecadadora/)

Quem matou Odete Roitman?

Publicado originalmente em 9 de outubro de 2014

Em 2002, a atriz Beatriz Segall, a memorável Odete Roitman da novela “Vale Tudo”, participou da campanha eleitoral expressando seu medo com relação a uma eventual vitória petista e suas possíveis consequências para o país. Fez coro com Regina Duarte e ambas foram duramente criticadas, inclusive por colegas de profissão, acusadas de fazer terrorismo eleitoral.
O tempo mostra que Beatriz Segall estava certa. Demorou, mas a conta dos 12 anos de PT chegou. Demorou porque Lula, espertamente, não mexeu em time que estava vencendo e manteve a cartilha estabelecida por FHC. Perversamente, a melhora fiscal auferida no governo PSDB deu mais folga orçamentária para o PT inchar o governo federal  em todos os escalões do funcionalismo, culminando com os 39 ministérios de hoje.
Mas o PT é uma droga que já vem malhada antes de nascer. O custo do aparelhamento e a consequente irresponsabilidade fiscal impedem a queda de juros. A falta de investimentos em infraestrutura e o sucateamento de nossa indústria trazem inflação. A perda de credibilidade, que acelerou fortemente no governo Dilma, afastam os investimentos. Enfim, o país não cresce. Preparem-se, o desemprego virá, mesmo nos maquiados números oficiais.
E o que falar de terrorismo eleitoral? Os dizeres de Beatriz Segall são peixe pequeno perto da artilharia pesada que Dilma e seus marqueteiros dispararam contra Marina Silva. Aécio Neves que se prepare para o chumbo grosso, porque, para essa gangue “Maria de Fátima”, vale tudo. O cartão de crédito do PT é uma navalha.
Na cobertura das eleições de 2014, vários jovens artistas declararam seus votos. É estarrecedor constatar que PT e PSOL continuam os preferidos dos artistas. Ou seja, aparentemente a classe não evoluiu nada em 12 anos.
É sabido que os “intelectuais” da classe artística defendem bandeiras estapafúrdias sempre que têm a chance. O que dizer do esdrúxulo movimento “se eu fosse venezuelano, votaria em Chávez”?http://veja.abril.com.br/250804/mainardi.html . A profissão artística depende da liberdade de expressão, mas curiosamente o meio artístico brasileiro costuma enaltecer regimes e governantes que cerceiam a liberdade. Qual o teu negócio, o nome do teu sócio? Os artistas parecem querer ter como sócio aqueles que são contra o principal insumo da arte. Tragicômico.
Contudo, esperava-se mais dos artistas jovens, aqueles conectados às mídias e redes sociais. A eles, bastava mais discernimento para realizar a podridão das bandeiras amplamente defendidas pelos “intelectuais” de outras gerações. Não aprenderam nada da torrente de informações a que têm acesso? Não testemunharam o fracasso dos regimes socialistas e autoritários? A classe involuiu? Caiu no conto da festa pobre que o PT armou para convencer?
A julgar pelos deputados preferidos dos jovens artistas, há mais uma lição que não aprenderam: vida real não é novela, não dá para separar o núcleo pobre do núcleo rico. Priorizar questões isoladas ou defender minorias sem atacar os problemas centrais é enganação. De que serve legalizar o aborto sem um sistema de saúde pública decente? Não vale a pena ver de novo parlamentares que se alavancam em temas isolados e com discursos monotônicos.
Quem matou Odete Roitman? Como a classe artística conseguiu permanecer alienada da realidade após tantas mazelas de 12 anos de PT? Cadê as novas Beatrizes para trazer, ao menos, algumas vozes dissonantes?
Aos artistas, há que se dizer o seguinte: vocês vivem do “capital financeiro”, tão demonizado pelos candidatos que escolheram. Este é o seu sócio, este é o seu negócio. Os grupos de mídia que veiculam seus trabalhos são constituídos com este capital e, pasmem, visam o lucro. O dono do teatro que investiu capital para montar seu estabelecimento deve ser considerado um vilão por cobrar ingresso ou aluguel do seu espaço? Vocês, artistas, fazem filme ou novela de graça? Cadê o altruísmo nessa hora? Por que vocês podem buscar lucro usando sua imagem e o lucro dos outros é tão vilipendiado? Sejam ao menos coerentes e parem de aceitar participar de filmes publicitários de empresas “opressoras”, como fabricantes de carros e calçados. E não apareçam mais no castelo da Revista Caras.
Precisamos de novas Odetes Roitmans no meio artístico. E em tantos outros círculos também. Se o Brasil seguir com esta “elite intelectual”, com estes “formadores de opinião”, ficaremos definitivamente na porta estacionando os carros – perderemos de vez a chance de discutir temas relevantes no país e no mundo, e seremos eternizados no posto de economia extrativista, cujo maior orgulho é o Bolsa Família. Haja festa pobre.
A novela Vale Tudo terminou com o personagem de Reginaldo Faria dando uma banana pro Brasil enquanto fugia para o exterior. Há tempos, nossos “intelectuais” dão banana para o Brasil nas urnas. Estão convidados a dar uma banana para o Brasil do “capital financeiro” e do crescimento e a ir morar no paraíso cubano, venezuelano ou norte-coreano. Podem ir de primeira classe – afinal, longe das urnas, gostam de conforto e bajulação.
Brasil, mostra a tua cara!

Vergonha


Publicado originalmente em 9 de Julho de 2014
Vergonha. Palavra estampada em todas as capas e manchetes.
Vergonha não é perder um jogo de 7×1. Não demos pontapés, não abandonamos o campo, não apagamos a luz. Pode até ser um resultado vergonhoso, mas é adjetivo e não substantivo.
Vergonha é um grupo de jogadores milionários discutir premiação para defender seu país. Deveria ser uma honra e há filas de profissionais que agradeceriam a oportunidade sem exigir nada.
Vergonha é demitirmos um técnico por curto-prazismo para contratar um rebaixado. Mostra que, dentre as poucas verdades do nosso hino, o “deitado em berço esplêndido” ainda vale – ou, no popular, “fez fama, deita na cama”. Seguimos premiando o medíocre.
Vergonha é nos iludirmos todo dia, pagando impostos extorsivos, mas achando que vivemos no “florão da América” e que, no fim das contas, vale o preço de estar no país tropical abençoado por Deus.
Vergonha mesmo é não termos entregue nem metade das obras prometidas para a Copa. Vergonha maior é uma delas ter desmoronado e matado gente. Vergonha é o país entrar em comoção pelo Neymar e não pelos mortos no acidente, ou pelos cidadãos que não têm acesso a saúde, educação, saneamento, ou pelas benesses concedidas à quadrilha do mensalão.
Vergonha é termos uma suprema corte que serve a interesses partidários.
Isso tudo é resultado da Vergonha que é o país. Agora sim, Vergonha substantivo, Vergonha com letra maiúscula. Muito pior do que um resultado vergonhoso.
Não temos que ter orgulho de ser brasileiro apenas no estádio. Não temos que ter amor à Pátria só na música de torcida. Não temos que cobrar explicação só do técnico de futebol. Se formos brasileiros com orgulho e amor, cobrarmos resultados daqueles que podem fazer diferença nos rumos do país e da sociedade e lembrarmos que o poder emana do povo, temos alguma chance de ter orgulho fora do estádio. E não apenas de quatro em quatro anos.
Que tenhamos vergonha na cara na hora de votar este ano.

Alemanha 7x1: Começou assim...

Sempre gostei de escrever. A inspiração normalmente vem quando vejo algo que me causa revolta. Vivendo no Brasil, cada vez mais me sinto inspirado.

Nunca pensei em divulgar meus artigos, mas tudo mudou durante a Copa do Mundo de 2014, mais precisamente após a derrota do Brasil para a Alemanha. Aquele resultado de 7x1 parecia o fim dos tempos, tomou uma dimensão desproporcional, todos os demais problemas pareciam secundários.

Aquilo me inspirou a escrever o texto "Vergonha", que foi publicado no blog do Rodrigo Constantino.

Depois, vieram outros artigos, também publicados aqui e ali. Ouvi bons comentários (e algumas críticas também, "faz parte") e a coisa foi indo.

Espero que a inspiração continue vindo... ou será melhor esperar que não venha mais, pelo bem do Brasil? Veremos.

Nos próximos posts, vou compartilhar os artigos que foram publicados desde o "Vergonha".