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Showing posts from October, 2015

Rock In Hell

Passado um mês do início do Rock In Rio 2015, vale uma reflexão sobre esta última edição.
O show do Queen, um dos mais rápidos a ter ingressos esgotados, mostrou que os dinossauros estão vivos. Não é necessário – nas próximas edições – que a organização repita os convites a Metallica, Slipknot, Iron Maiden, Katy Perry e outras figurinhas fáceis por aqui. O Queen mostrou que a música pode vencer o marketing, assim como Bruce Springsteen o fez na edição anterior. Então, quem sabe, possamos ver mais rock e menos Ibope no palco mundo.
Esta edição reacende um antigo debate que acompanha o festival desde a edição de 1991 – a condição de supporting act imposta aos artistas brasileiros. Qual é o sentido de Lulu Santos, nosso maior hitmaker, ter apenas uma hora de show? Não é tempo suficiente nem para a metade das canções que o público sabe de cor. Ou relegar o Angra – referência mundial em heavy metal melódico – ao palco sunset e escalar as irrelevantes Gojira ou Royal Blood para o palco mundo…

Imagine

Portugal, 1759. Marquês de Pombal decide extinguir o sistema de hereditariedade das capitanias do Brasil. Prestes a assinar o ato, ouve a ponderação de seu assessor: “Mas a hereditariedade é um direito adquirido de famílias de fidalgos”. Então, o marquês decide voltar atrás e mantém a hereditariedade das terras. Imagine como seria a História...
Brasil, 2015. Um governante corajoso realiza uma reforma ministerial apontando, para cada pasta, a pessoa mais competente para o cargo, independente de filiação partidária ou de influência no parlamento. Imagine como seria a História...
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Brasil, 1888. Princesa Isabel relê o texto da Lei Áurea, mas antes de assiná-la é interpelada por um conselheiro que alerta: “Pense nos senhores de escravos, eles perderão direitos adquiridos”. A princesa reflete, põe de lado a pena e rasga o papel. Imagine como seria a História...
Brasil, 2015. Um governante visionário reforma a previdência social enfrentando a dura realidade de que o dinheiro acabou. Propõe, po…

O sapo na panela

(Escrevi este texto na época das eleições de 2014. Distribuí a alguns amigos mas não publiquei. Infelizmente, o pior aconteceu)

Alemanha 1932, Haiti 1957, Cuba 1958, Venezuela 2004, Argentina 2007. O Brasil de 2014 é o saponapanela da vez?
Alemanha de Hitler diminuiu vertiginosamente o desemprego. Maquiou os dados, tirando da base de cálculo judeus e mulheres casadas. O estado de Hitler empregou milhares de pessoas a salários baixíssimos, pois quem não concordava perdia acesso à saúde pública. Hitler tornou-se ultrapopular com a ajuda de um belo marqueteiro e depois revelou-se um assassino sem limites.
François Duvalier elegeu-se no Haiti em 1957, médico percebido como simples e bem intencionado. Tinha o carinhoso apelido de Papa Doc. Em 2 anos, Papa Doc acabou com a oposição, criou uma temida milícia e espalhou panfletos se dizendo Deus. Papa Doc colocou seu filho no poder em regime vitalício.  Quase 60 anos depois, o Haiti é um país paupérrimo, violento e cujo único tecido de ordem é …

O "real" perigo do dólar

Publicado originalmente em 3 de setembro de 2015

Os brasileiros estão assustados – e com razão – com a disparada do dólar frente ao real. O resultado – termos ficado 50% mais pobres em moeda forte em tão pouco tempo – é uma enorme frustração, derretendo a confiança dos agentes econômicos e adiando certos planos para algumas famílias. A causa – o desgoverno do PT e a irresponsabilidade de Lula, Dilma, Mantega e afins na condução da economia – segue presente e por isso não tem havido qualquer alívio no mercado. Orçamento deficitário, críticas a Levy, aumento de impostos, tentativa de reedição do roubo mascarado em CPMF e outros assuntos têm sido abordados diariamente pela mídia e todos seguiremos acompanhando o desenrolar. Por ora, nada tem contribuído para que o real se fortaleça. Há, no entanto, um risco novo neste movimento da moeda: o enorme spread cobrado pelos participantes do mercado de câmbio. Bancos, cartões de crédito e casas de câmbio vêm praticando taxas muito superiores à d…

A foto e o filme

Publicado originalmente em 4 de julho de 2015

O governo FHC consolidou a estabilidade da moeda e institucionalizou o tripé econômico de meta inflacionária, regime de câmbio flutuante e equilíbrio fiscal. Ou seja, trouxe enormes benesses de longo prazo para o Brasil. Certo? Não necessariamente: a foto pode ter sido boa, mas o filme não é. A gestão da economia dos mandatos de FHC, capitaneada por Pedro Malan na Fazenda, atacou o problema fiscal com uma cartilha simples – aumentar impostos para cobrir qualquer rombo. Malan tirou vários esqueletos fiscais do armário, é verdade. Mas aproveitou o ensejo para aumentar grosseiramente os impostos, instituindo um pretenso fiscalismo: gasto mais, mas fecho as contas aumentando as receitas. É o mesmo que o trabalhador jantar todos os dias num restaurante chique e, no fim do mês, conseguir que o patrão aumente seu salário para que termine o mês no azul. Obviamente isso não existe no setor privado, e o fiscalismo de Malan e FHC foi uma falácia que …

Fora, Neymar

Publicado originalmente em 19 de junho de 2015

Colômbia 1, Brasil 0. Resultado normal, e até modesto considerando a péssima atuação da seleção brasileira. Apesar da derrota, Neymar foi o nome do jogo – dessa vez, pelos motivos errados. Neymar portou-se como um moleque mimado, reclamando sem parar, dando empurrões, procurando confusão. Faltou jogar bola. É natural que um atleta de alto nível tenha rendimento baixo esporadicamente, mas o verdadeiro craque e ídolo deve saber conviver com essas situações e aceitá-las. Neymar joga muita bola, mas tem muito que aprender até que possa defender o Brasil com dignidade e respeito; na vitória ou na derrota. O gran finale ocorreu após o apito final, quando Neymar chutou a bola com força sobre um jogador colombiano, instalando a confusão no gramado e depois dando uma cabeçada acintosa em outro adversário. Conseguiu ser expulso depois do fim do jogo. Comportamento ridículo seguido por atitude patética dos demais atletas brasileiros nas entrevistas …

Porque o crime compensa: a matemática do crime

Publicado originalmente em 18 de junho de 2015 Por que as pessoas jogam na mega-sena? Todo mundo – letrado ou não em teoria das probabilidades – sabe que a chance de ganhar é ínfima, então por que gastar dinheiro com um jogo tão negativamente assimétrico? A resposta é simples: porque o prêmio é enorme. Em outras palavras, o evento positivo (mesmo que raríssimo) tem consequências dramáticas – neste caso, o vencedor fica rico. E por que o volume de apostas aumenta quando o prêmio está acumulado há várias semanas? A probabilidade de ganho não se altera, mas as pessoas têm mais propensão a tentar a sorte. O que move as pessoas nesse caso é que o evento de sucesso tem consequências ainda mais extremas – dependendo do prêmio acumulado, o vencedor pode ficar realmente rico por várias gerações. Esta evidência empírica mostra que é a magnitude do evento improvável – e não sua probabilidade – que move as pessoas a aceitar uma assimetria contra si. Se a premiação fosse de cem reais, simplesmente ni…

Rio 450: Maioridade?

Publicado originalmente de 2 de março de 2015 Quando uma cidade e sua sociedade atingem a maioridade?  Provavelmente, a resposta varia caso a caso, conforme fatores culturais, econômicos, geográficos, dentre outros. No caso do Rio de Janeiro, aos 450 anos a cidade parece longe de atingir maioridade. Não atingimos maioridade penal. A impunidade reina na cidade – no trânsito, nos bairros ricos, nas comunidade mais pobres, nos pequenos delitos e jeitinhos, em todos os cantos. Desde o vaga certa que não emite o talão, ao trombadinha que furta bicicletas, ao bandido que sequestra uma médica num shopping de classe alta, ao assassino que tira a vida de um turista. O Carnaval, símbolo da cidade, agora tem até patrocínio de ditadura. Não atingimos maioridade na cidadania. O carioca que fica chocado com o noticiário policial é o mesmo que avança o sinal no rush matinal para economizar meio minuto e, com isso, arrisca atropelar um ciclista. O cidadão que reclama do motorista imprudente é o mesmo…

Brasil, pátria arrecadadora

Publicado originalmente em 31 de março de 2015

Época de declaração de imposto de renda, onde fica evidente que o slogan escolhido para o segundo mandato de Dilma Roussef é uma piada de mau gosto: “Brasil, pátria educadora”. Faltou combinar com o fisco. A regra do imposto de renda para o ano-calendário 2014 permite ao contribuinte pessoa física deduzir suntuosos R$ 3375,83 por dependente a título de despesas de instrução. Como a pátria educadora não oferece escola para todos, recai majoritariamente sobre a iniciativa privada o ônus financeiro de prover educação a crianças e jovens. Nosso generoso governo estima que com cerca de R$ 281 mensais é possível fazê-lo. Seria interessante que o MEC apontasse nos resultados do ENEM as escolas particulares cujas mensalidades fossem compatíveis com o limite de dedução do IRPF. Não deve dar muito trabalho. O conceito de instrução à luz do fisco é curiosamente míope. Não se admitem, por exemplo, deduções com cursos de idiomas. Há restrições em rela…

Quem matou Odete Roitman?

Publicado originalmente em 9 de outubro de 2014

Em 2002, a atriz Beatriz Segall, a memorável Odete Roitman da novela “Vale Tudo”, participou da campanha eleitoral expressando seu medo com relação a uma eventual vitória petista e suas possíveis consequências para o país. Fez coro com Regina Duarte e ambas foram duramente criticadas, inclusive por colegas de profissão, acusadas de fazer terrorismo eleitoral. O tempo mostra que Beatriz Segall estava certa. Demorou, mas a conta dos 12 anos de PT chegou. Demorou porque Lula, espertamente, não mexeu em time que estava vencendo e manteve a cartilha estabelecida por FHC. Perversamente, a melhora fiscal auferida no governo PSDB deu mais folga orçamentária para o PT inchar o governo federal  em todos os escalões do funcionalismo, culminando com os 39 ministérios de hoje. Mas o PT é uma droga que já vem malhada antes de nascer. O custo do aparelhamento e a consequente irresponsabilidade fiscal impedem a queda de juros. A falta de investimentos em i…

Vergonha

Publicado originalmente em 9 de Julho de 2014 Vergonha. Palavra estampada em todas as capas e manchetes. Vergonha não é perder um jogo de 7×1. Não demos pontapés, não abandonamos o campo, não apagamos a luz. Pode até ser um resultado vergonhoso, mas é adjetivo e não substantivo. Vergonha é um grupo de jogadores milionários discutir premiação para defender seu país. Deveria ser uma honra e há filas de profissionais que agradeceriam a oportunidade sem exigir nada. Vergonha é demitirmos um técnico por curto-prazismo para contratar um rebaixado. Mostra que, dentre as poucas verdades do nosso hino, o “deitado em berço esplêndido” ainda vale – ou, no popular, “fez fama, deita na cama”. Seguimos premiando o medíocre. Vergonha é nos iludirmos todo dia, pagando impostos extorsivos, mas achando que vivemos no “florão da América” e que, no fim das contas, vale o preço de estar no país tropical abençoado por Deus. Vergonha mesmo é não termos entregue nem metade das obras prometidas para a Copa. V…

Alemanha 7x1: Começou assim...

Sempre gostei de escrever. A inspiração normalmente vem quando vejo algo que me causa revolta. Vivendo no Brasil, cada vez mais me sinto inspirado.

Nunca pensei em divulgar meus artigos, mas tudo mudou durante a Copa do Mundo de 2014, mais precisamente após a derrota do Brasil para a Alemanha. Aquele resultado de 7x1 parecia o fim dos tempos, tomou uma dimensão desproporcional, todos os demais problemas pareciam secundários.

Aquilo me inspirou a escrever o texto "Vergonha", que foi publicado no blog do Rodrigo Constantino.

Depois, vieram outros artigos, também publicados aqui e ali. Ouvi bons comentários (e algumas críticas também, "faz parte") e a coisa foi indo.

Espero que a inspiração continue vindo... ou será melhor esperar que não venha mais, pelo bem do Brasil? Veremos.

Nos próximos posts, vou compartilhar os artigos que foram publicados desde o "Vergonha".