Saturday, October 3, 2015

Quem matou Odete Roitman?

Publicado originalmente em 9 de outubro de 2014

Em 2002, a atriz Beatriz Segall, a memorável Odete Roitman da novela “Vale Tudo”, participou da campanha eleitoral expressando seu medo com relação a uma eventual vitória petista e suas possíveis consequências para o país. Fez coro com Regina Duarte e ambas foram duramente criticadas, inclusive por colegas de profissão, acusadas de fazer terrorismo eleitoral.
O tempo mostra que Beatriz Segall estava certa. Demorou, mas a conta dos 12 anos de PT chegou. Demorou porque Lula, espertamente, não mexeu em time que estava vencendo e manteve a cartilha estabelecida por FHC. Perversamente, a melhora fiscal auferida no governo PSDB deu mais folga orçamentária para o PT inchar o governo federal  em todos os escalões do funcionalismo, culminando com os 39 ministérios de hoje.
Mas o PT é uma droga que já vem malhada antes de nascer. O custo do aparelhamento e a consequente irresponsabilidade fiscal impedem a queda de juros. A falta de investimentos em infraestrutura e o sucateamento de nossa indústria trazem inflação. A perda de credibilidade, que acelerou fortemente no governo Dilma, afastam os investimentos. Enfim, o país não cresce. Preparem-se, o desemprego virá, mesmo nos maquiados números oficiais.
E o que falar de terrorismo eleitoral? Os dizeres de Beatriz Segall são peixe pequeno perto da artilharia pesada que Dilma e seus marqueteiros dispararam contra Marina Silva. Aécio Neves que se prepare para o chumbo grosso, porque, para essa gangue “Maria de Fátima”, vale tudo. O cartão de crédito do PT é uma navalha.
Na cobertura das eleições de 2014, vários jovens artistas declararam seus votos. É estarrecedor constatar que PT e PSOL continuam os preferidos dos artistas. Ou seja, aparentemente a classe não evoluiu nada em 12 anos.
É sabido que os “intelectuais” da classe artística defendem bandeiras estapafúrdias sempre que têm a chance. O que dizer do esdrúxulo movimento “se eu fosse venezuelano, votaria em Chávez”?http://veja.abril.com.br/250804/mainardi.html . A profissão artística depende da liberdade de expressão, mas curiosamente o meio artístico brasileiro costuma enaltecer regimes e governantes que cerceiam a liberdade. Qual o teu negócio, o nome do teu sócio? Os artistas parecem querer ter como sócio aqueles que são contra o principal insumo da arte. Tragicômico.
Contudo, esperava-se mais dos artistas jovens, aqueles conectados às mídias e redes sociais. A eles, bastava mais discernimento para realizar a podridão das bandeiras amplamente defendidas pelos “intelectuais” de outras gerações. Não aprenderam nada da torrente de informações a que têm acesso? Não testemunharam o fracasso dos regimes socialistas e autoritários? A classe involuiu? Caiu no conto da festa pobre que o PT armou para convencer?
A julgar pelos deputados preferidos dos jovens artistas, há mais uma lição que não aprenderam: vida real não é novela, não dá para separar o núcleo pobre do núcleo rico. Priorizar questões isoladas ou defender minorias sem atacar os problemas centrais é enganação. De que serve legalizar o aborto sem um sistema de saúde pública decente? Não vale a pena ver de novo parlamentares que se alavancam em temas isolados e com discursos monotônicos.
Quem matou Odete Roitman? Como a classe artística conseguiu permanecer alienada da realidade após tantas mazelas de 12 anos de PT? Cadê as novas Beatrizes para trazer, ao menos, algumas vozes dissonantes?
Aos artistas, há que se dizer o seguinte: vocês vivem do “capital financeiro”, tão demonizado pelos candidatos que escolheram. Este é o seu sócio, este é o seu negócio. Os grupos de mídia que veiculam seus trabalhos são constituídos com este capital e, pasmem, visam o lucro. O dono do teatro que investiu capital para montar seu estabelecimento deve ser considerado um vilão por cobrar ingresso ou aluguel do seu espaço? Vocês, artistas, fazem filme ou novela de graça? Cadê o altruísmo nessa hora? Por que vocês podem buscar lucro usando sua imagem e o lucro dos outros é tão vilipendiado? Sejam ao menos coerentes e parem de aceitar participar de filmes publicitários de empresas “opressoras”, como fabricantes de carros e calçados. E não apareçam mais no castelo da Revista Caras.
Precisamos de novas Odetes Roitmans no meio artístico. E em tantos outros círculos também. Se o Brasil seguir com esta “elite intelectual”, com estes “formadores de opinião”, ficaremos definitivamente na porta estacionando os carros – perderemos de vez a chance de discutir temas relevantes no país e no mundo, e seremos eternizados no posto de economia extrativista, cujo maior orgulho é o Bolsa Família. Haja festa pobre.
A novela Vale Tudo terminou com o personagem de Reginaldo Faria dando uma banana pro Brasil enquanto fugia para o exterior. Há tempos, nossos “intelectuais” dão banana para o Brasil nas urnas. Estão convidados a dar uma banana para o Brasil do “capital financeiro” e do crescimento e a ir morar no paraíso cubano, venezuelano ou norte-coreano. Podem ir de primeira classe – afinal, longe das urnas, gostam de conforto e bajulação.
Brasil, mostra a tua cara!

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