Thursday, December 29, 2016

Frágil, extremamente frágil

O que torna um sistema robusto? Como aumentar esta robustez ao longo do tempo?

O livro “Antifragile” de Nassim Taleb fecha o ciclo iniciado na sua primeira publicação “Fooled by Randomness” e seguido por “Black Swam”. Nestas obras, Taleb aborda os temas de eventos aleatórios, fenômenos não-lineares, (im)previsibilidade, dentre outros, e ajuda a responder as perguntas acima.

No volume final – “Antifragile” – Taleb mostra como pequenos choques são importantes para aumentar a robustez de qualquer sistema ou organização. É o que cunha de “antifrágil”, ou seja, algo que se torna mais resistente com o tempo. Um dos exemplos citados por Taleb, óbvio e inquestionável, é a observação da natureza – o indivíduo é frágil, mas o sistema é antifrágil: quando surge um novo vírus ou bactéria, a população exposta ao novo agente pode sofrer baixas significativas (indivíduos) mas, ao final, o sistema sobrevivente torna-se mais robusto, pois cria defesas a estes agentes.

Se não houvesse choques esporádicos, o sistema apresentaria variabilidade zero (ou seja, uma percepção de ausência de risco), mas estaria exposto a vários riscos (vírus e bactérias, mantendo o exemplo). Nesta configuração, a população tem um risco maior de ser dizimada a qualquer momento, uma vez que não acumulou defesas ao longo do tempo. Se houver a ocorrência simultânea de dois fatores de risco (exemplo: duas epidemias severas e concomitantes, um cisne negro), a chance de o sistema sobreviver é menor do que se cada epidemia acontecesse em momento diferente, embora este segundo cenário acarrete maior variabilidade de curto prazo.

Dessa forma, o passado não pode ser usado para prever o futuro, especialmente em situações onde a incidência de choques no passado foi baixa ou nula.

**

Taleb aplica este conceito para analisar diversos domínios – finanças, política, literatura e outros tantos. Em um determinado momento do livro, a leitura remete a diversos aspectos observados no Brasil, que contribuem para que nosso país seja extremamente frágil em variadas esferas, seja pela ausência de choques de curto prazo ou pela mania que temos de achar que o passado tem poder preditivo.

Tome-se, por exemplo, o funcionalismo público. A crise de vários estados afeta a expectativa de remuneração futura dos funcionários, causando protestos, revolta, polêmica. Trata-se de um sistema onde não houve choques ao longo de várias décadas, pois o funcionário tinha uma renda “garantida”, com correção anual “conhecida” e percebia risco nulo em sua remuneração. Quando o dinheiro acaba e há que se repensar o custo do funcionalismo, os indivíduos não têm defesas.

O remédio para isso é a remuneração variável, baseada em performance. Um funcionalismo mais eficiente pode ajudar a reduzir o tamanho do estado a longo prazo, bem como premiar os bons servidores com um bônus de desempenho. Num mundo onde é possível avaliar livros, filmes, restaurantes, corridas de táxi e até encontros amorosos com simples toques na tela do celular, é perfeitamente factível que o estado implemente um sistema onde o usuário avalie o servidor. Os servidores bem avaliados receberão mais ao final de um bom ano, e menos ao final de um ano de pior desempenho. Choque. Variabilidade. Resistência. Antifragilidade.

O mesmo raciocínio vale para a aposentadoria. O sistema brasileiro – “pay as you go”, ou “unfunded” – com benefício definido equivale a um trem-bala andando em direção ao muro. Uma hora vai bater. O mutuário do INSS, por sua vez, nunca percebeu risco ou variabilidade – ou seja, não está preparado para uma surpresa negativa. A maneira de corrigir o problema é criar um sistema “funded”, onde cada mutuário tem uma conta segregada, podendo escolher investir em renda fixa, ações, ou combinações, sendo que ao se aposentar, viverá da anuidade que o volume poupado (com rendimentos) lhe proporcionar. A variabilidade da carteira será visível no extrato mensal, criando uma correta percepção de risco e disciplinando o indivíduo a poupar adequadamente. O sistema torna-se antifrágil.

A certa altura, Taleb menciona que guerras e conflitos de pequena escala são benéficos e até desejáveis. O ponto é polêmico, mas a ideia é que ajudam a “passar a limpo” certas questões de tempos em tempos. O cenário oposto – um período de paz prolongado – pode trazer a ilusão da ausência de risco, sendo que as questões geopolíticas, sociais, raciais, religiosas se acumulariam e poderiam levar a uma guerra de grandes proporções. Um cisne negro.

Em tempo: os veteranos de guerra constituem um grande poder moderador na sociedade, uma vigilância às práticas do estado. Pense um pouco: o sujeito que foi para o front defender seu país, deixando para trás sua família e viu seus amigos morrerem tem uma tolerância muito baixa a eventuais práticas não-republicanas dos seus governantes. Os atentados esporádicos praticados por ex-combatentes geram percepção de risco à classe política e, portanto, robustez e possivelmente antifragilidade na organização do governo a longo prazo.

No Brasil, carecemos de veteranos de guerra e de sua força moderadora... Com o agravante de nossa capital federal estar distante das nossas metrópoles, o que causa uma ilusão de “risco zero” à classe política. Ninguém tem medo e nunca houve problema no passado. Cria-se espaço para o deboche que vemos todos os dias nos jornais.

**

O estado paternalista é frágil. A Coréia do Norte tem aparente estabilidade política e social, mas trata-se de um barril de pólvora, pois a sociedade não foi exposta a choques, muito menos os governantes. Um dia, explode.

A Venezuela é outro exemplo, esta já está explodindo. A Romênia de Ceaucescu explodiu, sendo o ditador e sua família executados poucos dias após ele fazer um discurso para milhares de pessoas em praça pública. A União Soviética bateu no muro quando o crescimento artificial exauriu-se. Há diversos exemplos na História.

O Brasil encontra-se em posição frágil em diversas questões econômicas, sociais e políticas: leis trabalhistas, seguridade social, jurisprudências – a lista é longa.  Tudo isso é fruto de um estado demasiadamente paternalista e protecionista, que pretende ser “tudo para todos”. Não funciona. Precisamos de choques, de risco, de variabilidade. Não é para sermos um “país de todos”, não funciona.

Do jeito que está, podemos até pedir música: “Frágil, extremamente frágil... Prá você, eu e todo mundo que tá junto”.


Thursday, December 1, 2016

Achtung Baby

O professor de História entra na sala de aula, portando consigo uma cópia de Mein Kampf, atraindo olhares obtusos dos alunos.

— Bom dia, turma. Hoje nossa aula será dedicada a estudar a jornada e o legado de um grande líder do século XX. Eu gostaria de começar no longínquo ano de...

— Nazista! Nazista! Eu me recuso a ficar aqui ouvindo você falar desse monstro, interrompe uma aluna.

— Calma, pondera o professor. Eu ia apenas dizendo que ele começou a moldar sua liderança por acreditar que podia unir seu povo num governo solidário. Ocorre que...

— Solidário, professor?! – brada outro aluno. Ele criou massas de manobra, verdadeiros escravos. A solidariedade não existia. Era um socialismo de fachada onde os “amigos do rei” tinham tudo do bom e do melhor enquanto o povo passava fome.

— Veja – retruca o professor. Ele se interessou pela política em parte por encontrar exatamente um cenário de devastação econômica, com alto desemprego e nações militarmente mais fortes se beneficiando financeiramente de acordos que...

— Isso é falácia, professor. Não há desculpa para expiar um genocida deste calão.

— Isso mesmo, faz coro outro aluno. Ainda por cima, perseguiu milhões de pessoas por racismo, intolerância religiosa e homofobia. Matou outros tantos simplesmente para criar a tal solidariedade, uma pureza fabricada. Um nojo!

— Acabou com a liberdade de imprensa e de religião, oprimiu seu povo, impediu manifestações. Professor, aqueles filmes com todo mundo ouvindo seus discursos inflamados é pura propaganda. Era uma felicidade de fachada.

 — Turma, vocês talvez sejam jovens demais para perceber que ele era um visionário, um líder que queria o melhor para seu povo. Um homem cândido por dentro, tanto que...

— Cândido? O senhor só pode estar nos zoando. O cara exterminou milhões de pessoas. Fuzilou oponentes, homossexuais, jornalistas, escritores, gente trabalhadora e de bem. Quantas famílias foram desfeitas? A única esperança para os perseguidos era abandonar seus lares na tentativa de fugir com vida e buscar um recomeço em terras estrangeiras.

— Isso mesmo, professor. Concordo com o que meu colega disse e acrescento que este monstro se apropriou de bens de civis inocentes, tomando para si terras, casas, dinheiro, obras de arte, jóias, e tudo mais. Tornou-se um homem riquíssimo sob a fachada do socialismo fraterno.

— Pessoal, vocês não vêem o quanto o legado deste líder será benéfico para seu povo no futuro? – indaga o professor, já cansado do debate.

— Professor, o senhor está louco. O mundo globalizou-se e, apesar das ondas nacionalistas mais recentes, não há mais volta. Qualquer nação que se fechar pro mundo, será destruída economicamente. O quê de bom esse sujeito deixou, meu Deus?

— Galera, vamos ocupar esse barraco aqui, grita um outro lá do fundo. Temos que expulsar esses professores reacionários desta escola! Ocupação já!

Instalou-se uma gritaria na sala por alguns minutos, até que finalmente o professor conseguiu acalmar os ânimos e concluir sua aula.

— Prezados alunos, vim aqui hoje para falar sobre Fidel Castro.

Os queixos começaram a cair...

— Pelo que percebi, vocês conhecem bastante da história deste homem, pois tudo o que vocês disseram foi bastante pertinente à trajetória dele e latente em sua doutrina.

Olhares perplexos... O professor seguiu:

— Porém, uma diferença entre Hitler e Castro é que Castro jamais obteve um voto sequer. Mesmo assim, esteve no poder por quase 60 anos.

Nem um pio... E, enfim, a conclusão do mestre:

— Certa vez, Castro disse que a História se encarregaria de absolvê-lo. Vocês, nobres alunos, o julgaram aqui hoje, condenando-o a um lugar na História ao lado de Hitler. Parabéns e até a próxima semana.


(Nota do autor: Não sei se é possível relativizar assassinos. É claro que a maldade de Hitler teve alcance muito maior. De antemão, peço desculpas aos que se sentirem ofendidos pela analogia - e não comparação - explorada no texto)

Wednesday, November 30, 2016

Carroças

Parem as prensas!!! Já está à venda o Del Rey modelo 2017 top de linha. Opcionais desta versão mega-premium SLXX incluem: aquecimento, relógio, barra e cadeado anti-furto, luz interna, retrovisor do carona, pisca-pisca nas laterais e encostos para cabeça. Em 2018, o Del Rey SLXX terá trava elétrica.

O anúncio acima é obviamente uma ficção caricata. Ou, quem sabe, uma realidade paralela? Como seriam os automóveis de fabricação nacional se Fernando Collor, há quase 30 anos, não tivesse dito que nossos carros eram carroças?

À época, a declaração de Collor enfureceu a Autolatina – joint-venture entre Ford e VW que controlava cerca de 60% da produção nacional... Não pela Autolatina entender que Collor denegrira a imagem de seus produtos (os executivos sabiam que, de fato, os carros eram horríveis... bem como qualquer pessoa que já houvesse alugado um carro nos EUA ou Europa), mas sim porque estava claro que viria competição a qualquer momento.

De fato: Collor abriu o mercado para carros importados, que antes eram taxados proibitivamente. A Autolatina e seu exército de lobistas tentou de tudo para impedir a mudança, mas não houve jeito, a porteira estava aberta e a boiada estava a caminho para atropelar os fabricantes de carroças. Era o fim do “monopólio”, o fim dos dias em que a Autolatina tinha sua “bancada” no parlamento e uma oportunidade perdida de extirpar de vez o câncer dos sindicatos.

A chegada dos carros importados confirmou incontestavelmente a afirmação de Collor – nossos carros eram verdadeiras carroças. Os novos modelos disponíveis traziam inúmeros opcionais que, nos veículos nacionais, inexistiam ou só figuravam em certos “tops de linha” caríssimos, e para os quais era necessário esperar alguns meses pela entrega. Ítens de segurança que faltavam em nossos “possantes” eram, obviamente, verificados nos modelos importados básicos. Conforto, tecnologia, segurança e performance passaram a estar disponíveis ao consumidor sem que fosse necessário pagar um preço premium por eles.

Resultados de curto prazo: o market share dos importados bombou e as montadoras nacionais reclamaram adoidado vendo seu império ruir.

Resultados de longo prazo: os carros nacionais melhoraram substancialmente de padrão, bem como nossas normas técnicas para ítens obrigatórios de segurança, habilitando os automóveis de fabricação brasileira a serem comercializados em outros países. Com a melhora da relação custo-benefício, mais brasileiros puderam adquirir veículos próprios e a reposição de frota instalada tornou-se mais frequente.

Ou seja: o chororô foi à toa, pois, no longo prazo, houve maior geração de valor para todos, com maior mercado endereçável, mais impostos gerados, mais empregos e consumidores mais satisfeitos.

**

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, recentemente sancionou a lei que proíbe o Uber (e outros serviços similares) de operar na cidade. Ou seja, quer defender o atraso.

Os táxis cariocas – parafraseando Collor – são verdadeiras carroças. Mal-conservados, sem opções de pagamento via cartão, sem disponibilização de recibo, sem troco... um showroom de horror.

Exagero? Basta dar um pulinho em São Paulo e comparar. Naquelas bandas, a maioria dos táxis possuem bancos de couro, carregador de celular disponível para uso do passageiro e opção de pagamento com cartão de crédito. É quase impossível encontrar um motorista que não tenha troco ou recibo, que se vista mal, ou que recuse uma corrida. Já no Rio de Janeiro... Múuuuu...

O chororô dos taxistas cariocas é o eco da choradeira da Autolatina há quase 30 anos. Ninguém quer concorrência, e, quando ela aparece, vem a mania tupiniquim do direito adquirido e a alergia tropical ao livre mercado. É a mentalidade tacanha do “quanto mais caro eu puder cobrar pelo pior serviço/produto, mais esperto eu sou”. Imaginem se os acendedores de lampiões tivessem promovido quebra-quebra na rede elétrica no fim do século XIX? Ou se a Autolatina tivesse conseguido barrar os carros importados? Andaríamos de Del Rey 2017 à espera do modelo 2018 com trava elétrica.

Ocorre que os taxistas cariocas foram expostos: o serviço é caro e ruim. A porteira foi aberta. O consumidor não é bobo. Não há volta. No longo prazo, não há direito adquirido.

Algumas cooperativas de táxis já entederam a mensagem do livre mercado e passaram a oferecer melhores serviços (carros apresentáveis e equipados, motoristas mais atenciosos) e descontos nas tarifas. Objetivo: melhorar a proposta de valor para o cliente, recuperar volume de viagens e manter a atividade financeiramente interessante para o taxista.

Infelizmente, há uma banda de vândalos que opta pelo quebra-tudo, como aquele visto há alguns dias no aeroporto Santos Dumont. “Competir” desta forma com um concorrente que possui bolso mais fundo, melhor serviço/comodidade e preço mais baixo é a mais pura burrice. Caros taxistas, não se surpreendam se o Uber retaliar bancando 80% de desconto durante dezembro e acabar com o 13º salário de vocês...

Em resumo, é tolice tentar reverter a inovação tecnológica a fim de preservar feudos, é deletério no longo prazo. É necessário aliviar os custos de regulação para os taxistas e criar uma fiscalização mínima para o Uber e afins. E só. O restante, o mercado se encarrega de resolver.

Ou então, podemos continuar andando de carroça por aí. Segura, peão!




Wednesday, November 2, 2016

We don’t need another Hiroo

As linhas cantadas pelo vozeirão de Tina Turner na trilha sonora de Mad Max são inesquecíveis:

Out of the ruins
Out from the wreckage
Can’t make the same mistake this time 
(…)
We don’t need another hero
(…)

Parecem ter sido escritas sob medida para o Brasil de hoje, um país saindo dos escombros da era PT e sem margem para cometer qualquer erro (que dirá os mesmos erros de antes). Enfim, não precisamos de outro herói. Não queremos um salvador-da-pátria, e sim um estado sério, eficiente e barato.

All we want is life beyond the Thunderdome.  

No filme, o Thunderdome era uma arena que sediava lutas armadas. Assim como na canção: sim, queremos viver além do Thunderdome. Queremos um Brasil sem “nós-contra-eles”, sem lutas sociais por pura ideologia, sem maniqueísmos - enfim, um país pacífico sob o império da lei para todos.

**

Também não precisamos de um novo Hiroo.

Hiroo Onoda foi o último (ou um dos últimos, segundo algumas fontes) soldado japonës a se render na Segunda Guerra Mundial, aceitando a derrota cerca de 30 anos depois do término do conflito.

Hiroo ficou emboscado em uma ilha filipina e não depôs suas armas mesmo depois de ter notícias de que a guerra havia terminado e que o exército japonês havia se rendido. Hiroo não aceitava entregar-se, julgava necessário cumprir as ordens recebidas de seu superior até ser propriamente dispensado deste dever.

Por anos, viveu isolado, alimentando-se primordialmente de frutas. Ocasionalmente recorria a técnicas de guerrilha para conter a polícia local. Durante sua resistência, matou alguns filipinos.

Quando Hiroo finalmente rendeu-se, foi recebido com honrarias no Japão. Mas, decepcionado com a modernização do país, imigrou para – que dúvida...  – o Brasil.

**

As ocupações de escolas em curso no Brasil são exatamente o Hiroo de que o país não precisa. São peões que tentam demarcar território numa guerra perdida. A esquerda perdeu nas urnas em 2016 de forma acachapante, saiu derrotada, humilhada e, possivelmente, moribunda.

Mas a massa de manobra, os “estudantes”, são o Mad Max moderno. Abarrotados e buscando fazer justiça por conta própria, tal qual o personagem. E, assim como Hiroo, matando inocentes durante o processo se for necessário.

Os ocupantes têm como principal bandeira o protesto ao “golpe” de Temer, às eventuais mudanças no ensino médio e à PEC 241. Mas, como amplamente veiculado em vídeos na internet, nem sabem articular de forma minimamente decente o que reza a PEC 241. Apenas cumprem as ordens de “professores” e facções políticas, seus "superiores" – igualzinho a Hiroo, que fazia questão de obedecer ao seu comandante, embora não houvesse mais qualquer propósito em fazê-lo...

Hiroo, ao menos, tinha motivo: seguia cegamente a cadeia militar de comando. Mad Max teve sua família assassinada pelos bandidos. Já os ocupantes, felizes matriculados em um sistema de educação pública deficitário em número de vagas, não têm motivo aceitável para protestar com a desproporção observada. No processo de ocupação, ainda impedem os outros jovens de seguirem adiante com suas vidas letivas, entendendo que seu “direito” é superior ao de outrem. Diferentemente de Hiroo, não terão honras em sua rendição – no máximo uma candidatura pelo PSOL daqui a alguns anos.

We don’t need another hero. Lula já nos mostrou que heróis não funcionam. We don’t need another Hiroo. Precisamos de ordem e progresso.


Thursday, October 13, 2016

Zeros à esquerda

Uma das observações mais intrigantes quanto aos políticos de esquerda é a diminuta posição patrimonial que insistentemente declaram à Justiça Eleitoral. Este ano, na eleição municipal do Rio de Janeiro, houve alguns representantes importantes desta trupe: Molon - antes de herdar alguns bens – reportava R$ 26 mil enquanto Freixo informa a quantia de R$ 5 mil.

Ora, um cidadão que ganha salário mínimo e consegue, após certo tempo, acumular R$ 5 mil, ou R$ 26 mil, é um herói. Ele mostra disciplina orçamentária e diligência em seus investimentos. Em contrapartida, é muito curioso que um parlamentar com salário mensal de R$ 20 mil (ou mais) além de incontáveis ajudas de custo chegue ao final de vários mandatos (ou mesmo de meio mandato) com um patrimônio tão pequeno...

Há algumas hipóteses não-excludentes a serem consideradas para explicar este fenômeno:

  1. A declaração à Justiça Eleitoral não ser fidedigna
  2. O sujeito ser um gastador patológico
  3. O sujeito ser um péssimo investidor de suas reservas
  4. O sujeito ser um destacadíssimo filantropo
  5. Os bens que o sujeito possui terem sido recebidos como presentes ou pertencerem, na verdade, a amigos 

Vejamos uma a uma.

  1. Se a declaração de bens não é fidedigna, o candidato burla a lei e, portanto, não tem qualificação ética para disputar um cargo público.
  2. No caso de o candidato ser um perdulário incontrolável, é uma temeridade que ele seja eleito e assuma a “gestão” dos recursos públicos. O Brasil já viu como foi a performance da gerenta/presidenta nesta disciplina... Não faltou aviso, pois sua lojinha de artigos a R$ 1,99 não foi muito longe...
  3. Um salário de R$ 20 mil, acrescidos de diversas ajudas de custo, é suficiente para fazer frente a  muitas despesas mensais. Ou seja, deveria sobrar algum trocado – R$ 2 mil por mês parece perfeitamente factível. Ao final de cada mandato de 4 anos, essas economias, se guardadas embaixo do colchão (ou na cueca, como a turma de esquerda costuma fazer), somariam R$ 96 mil. Se investidas na poupança (normalmente um mau investimento), resultariam em algo como R$ 108 mil ao final de um único mandato. Ou seja, o sujeito tem que ser um péssimo investidor para conseguir a proeza de deter um valor tão baixo. Será que os candidatos decidiram, em uníssono, acreditar na gerenta e comprar tudo em ações da Petrobrás ?
  4. Não se pode descartar a hipótese de os nobilíssimos candidatos socializarem sua riqueza, algo tão defendido por eles... Mas é improvável que sejam filantropos tão magnânimos a ponto de lhes sobrar um patrimônio tão minguado. Se este fosse o caso, estariam veiculando tal virtude aos quatro ventos em seus programas eleitorais... #sóquenão... Rejeita-se esta hipótese.
  5. Sem comentários.


Os valores reportados são, de fato, altamente intrigantes, ou mesmo impossíveis. A analogia aqui é um motorista que declara ir de carro do Rio de Janeiro a São Paulo em 3 horas, uma velocidade média superior a 140 km/h... Possível? Sim. Provável? Não. Se a declaração for ainda mais exagerada – 2 horas para percorrer o trajeto – não é necessário nem ponderar sobre o tema, pois a velocidade média necessária – superior a 210 km/h – é inexequível. Rejeitar-se-ia sumariamente a hipótese de o motorista estar falando a verdade. Cinco mil reais de poupança seriam 140 km/h ou 210 km/h? O leitor decide.

Por que então esta obsessão dos políticos de esquerda em reportar tantos zeros à esquerda de seus patrimônios e tão poucos à direita, informando valores que beiram o não-crível?

(Parênteses: Aliás, Lula é o ícone desta obsessão. Tinha faturamento suficiente com “palestras” para justificar as aquisições de seu tríplex e de seu sítio... Mas, como colocou o prefeito Eduardo Paes, Lula ainda tem alma de pobre. Só a alma.)

Uma possível explicação vem da nossa conexão lusitana. As Capitanias Hereditárias foram cedidas a amigos do rei, que sabidamente não eram pessoas competentes, honestas ou de bem. Portanto, já no início de nossa História, ter dinheiro podia ser uma mancha no caráter. Mais tarde, com a vinda de D João VI, oficializou-se a venda de favores reais para bancar o déficit galopante da corte. Ou seja, quem era endinheirado metia-se em esquemas e negociatas. E por aí vai. É uma pena que ainda não tenhamos vencido este estigma...

... Será por esse motivo que os candidatos mais abastados, Molon (mais de R$ 1 milhão reportado, após herança) e Jandira (R$ 550 mil informados), tenham tido uma votação tão inexpressiva? O fato é que Freixo – com seus R$ 5 mil – foi o grande preferido das esquerdas.

Os paulistanos felizmente já viraram a página da preferência caridosa por “hipossuficientes”. Elegeram um empresário de sucesso que declarou possuir bens de quase R$ 200 milhões. Muito melhor ter este cidadão como gestor do que alguém que não consegue administrar suas finanças domésticas (mesmo com polpudos salários e benefícios), seus investimentos ou sua lojinha de R$ 1,99.

O Rio de Janeiro e muitas outras praças, infelizmente, ainda preferem os zeros à esquerda.


Sunday, October 9, 2016

Na sala de aula

Escola e classe hipotéticas. Professor, infelizmente, baseado em fatos reais. Aula de História em algum lugar do Brasil.

— Bom dia, turma. Hoje vamos falar sobre democracia, um conceito que nasceu na Grécia Antiga e...

— Professor – interrompe um aluno – Se é um conceito tão antigo, por que vamos estudá-lo? Estamos no século XXI...

— Boa pergunta. Ideias boas, como as de Marx e outros, mesmo que antigas, devem ser bem entendidas para, então, ser colocadas em prática. No caso em pauta, é importante estudar o que é democracia para entendermos bem o golpe de estado que ocorreu no Brasil este ano. Vejam que...

— Professor, Marx não é aquele escritor que pregava a socialização dos meios de produção?

— É sim – completou outro aluno – E as ideias dele nunca deram certo. Nem em Cuba, nem na Venezuela e nem na Coréia do Norte, só levaram a sofrimento, miséria e atraso. E tem mais...

— Silêncio – interrompe “democraticamente” o professor. O assunto que vamos estudar hoje é democracia. Vamos nos ater a ele, certo? Como eu ia dizendo, a democracia surgiu na Grécia Antiga, nas cidades-estado gregas, onde cada cidadão adulto tinha direito a votar e escolher seus representantes no poder. Os candidatos que tivessem mais votos, e portanto mais alinhados aos interesses do povo, recebiam um mandato para governar.

— Professor, então os Estados Unidos não são uma democracia! – brada um aluno.

— E nem a Inglaterra! – diz outro.

— Gente, pondera o professor, acho que vocês estão trocando as bolas. Por que dizem isso?

— Professor, nos Estados Unidos, o voto popular é apenas uma recomendação de voto para o colégio eleitoral daquele estado, que pode acatar ou não a vontade do povo. Ademais, na eleição de 2000, Al Gore recebeu um número maior de votos mas não foi eleito, pois perdeu em número de delegados. George W Bush foi eleito com menor votação popular que Al Gore.

— Que besteira! , diz outro aluno. Claro que os Estados Unidos são uma democracia, todas as pessoas têm direito a expressar suas opiniões, são livres e podem ir e vir à vontade. O estado existe para servir o povo, e as pessoas têm pleno direito de reclamar e exercer sua cidadania de forma participativa. E o sistema bipartidário evita oportunismo ideológico e partidos de aluguel como temos aqui.

— Você é um filhote de enlatado, meu filho! Ataca o professor. Os Estados Unidos são um país opressor que...

— Um país muito bom, isso sim, diz outro aluno – Já vivi lá e as pessoas têm uma vida digna, mesmo aquelas que ganham menos. E, apesar de o voto ser por colégio eleitoral, todos concordam que se vive numa democracia. Inclusive, o voto é facultativo, pois as pessoas são livres também para optarem por não votar.

— Chega, interrompe o professor, já irritado. Alguém falou em Inglaterra? Gostaria de ouvir...

— Sim, fui eu – identifica-se um aluno no fundo da sala. A Inglaterra não é uma democracia pois tem rei, que não é escolhido democraticamente.

— Você está enganado, rebate outro aluno. Os ingleses escolhem seus parlamentares pelo voto direto, bem como o primeiro-ministro. O rei é o chefe de Estado, que representa o país em certas funções. Mas o chefe de Governo é o primeiro-ministro, que é escolhido pelo voto popular. São dois poderes distintos, e o sistema funciona muito harmoniosamente, não só no Reino Unido como também em outros países.

— Mas o rei pode dissolver o parlamento, responde o aluno do fundo. Isso é golpe!

— Não, não é golpe. É um mecanismo para interromper um parlamento que não goze mais da confiança do povo. É democracia na veia, pois é um ato para proteger o povo de um governo temerário. É algo usado muito raramente nas monarquias constitucionais como Reino Unido e Espanha.

— Silêncio, grita o professor. Estamos fugindo do tema. Quero falar do golpe de estado que ocorreu no Brasil este ano. Um mandato legítimo foi interrompido pelo parlamento.

— Professor, os parlamentares tinham poderes legítimos para isso?

— Ãaaa, bem, isso é discutível. Veja que apenas em caso de crime comprovado os parlamentares poderiam...

— Professor, os parlamentares não são eleitos pelo povo? Eles não nos representam então para julgar se o impeachment procede?

— Bem...

— Claro que não, diz outro aluno. O modelo brasileiro é completamente distorcido. Apenas uns 30 deputados foram eleitos com seus próprios votos, os outros 500 foram ajudados pelos votos da legenda.

— É mesmo?, pergunta uma aluna. Explica melhor?

— Explico. Alguns deputados que receberam muitos votos – e portanto eram os escolhidos do povo – acabaram não sendo eleitos porque o sistema brasileiro também leva em conta os votos em cada partido.

— Que absurdo! Quer dizer que aqueles representantes que o povo escolheu não são os que receberam o mandato?

— Exato.

— Que doidera. Isso não é democracia!

— Não mesmo. E muitos dos deputados que se elegeram com votos dos outros ficam falando de golpe à democracia, veja você...

— Silêeeeencio! Chega dessa zoeira, grita o professor. É claro que temos uma democracia, onde vocês estão com a cabeça? Infelizmente, este ano tivemos um golpe, inclusive condenado por governos de outros países, Cuba, Venezuela e outros. Mas eu confio que em 2018 a esquerda vai...

—Hahahaha, explode de rir uma aluna. Cuba e Venezuela nos acusaram de golpe de estado? Professor, a turma que está no poder em Cuba há quase 60 anos nunca recebeu um voto. O senhor está louco? E a Venezuela tem um governo...

— Fora de sala! Já para a coordenação.

— Peraí, diz um aluno. Professor, na democracia cada cidadão pode expressar sua opinião e é necessário conviver com as diferenças. Do contrário, há abuso de poder que, se não for coibido, invalida o status de democracia em primeiro lugar. Então...

— Fora de sala você também! Os dois engraçadinhos vão se entender com a coordenação.

—  Alto lá, diz a representante de turma. Eu fui eleita com o voto popular, um voto para cada aluno, sem quociente eleitoral ou outro truque qualquer. Então, investida desse poder, eu digo que vamos exercer uma democracia aqui.

— Mandou bem! Isso aí! Bravo! Os gritos ecoavam pela sala, enquanto o professor asistia perplexo.

—   Silêncio, por favor – pede a representante. Quem vota para o professor sair de sala, levante a mão... Pronto. Agora, quem vota para nossos colegas saírem de sala, levante a mão... Certo... Professor, em nome da democracia, retire-se da sala. O senhor pode tentar lecionar essa baboseira em Cuba ou na Venezuela. Boa sorte.


E, então, diversos alunos desta turma ingressaram na vida pública. Anos mais tarde, conduziram uma reforma política no Brasil, de forma a acabar com os partidos-anões, o quociente eleitoral e outras jabuticabas. Final feliz.


Thursday, October 6, 2016

Cheirinho de hepta

O cheirinho de hepta está no ar... Não, ele não se dissipou depois do empate do Flamengo com o São Paulo. Na verdade, o cheirinho ficou mais forte no último fim de semana.

É o cheiro do hepta da cidade do Rio de Janeiro! O heptacampeonato de pior eleitorado das galáxias. Um povo demente que não entende que as escolhas de hoje terão consequências por vários amanhãs. Um bando de desmiolados que gosta de politizar até eleição de síndico e comodoro. Uma cidade que, mesmo passados 56 anos, ainda tem ranço de ser ex-capital.

Exagero? Então vejamos o rol de títulos.

O estado, com expressiva ajuda dos cariocas, elegeu Garotinho em 1998, Garotinha em 2002, e Cabralzinho duas vezes, em 2006 e 2010. Para a prefeitura, a cidade conseguiu façanhas à altura, escolhendo Saturnino em 1985 e Benedita em 1992. Somos hexa!

(Pausa: nem se computa aqui o bicampeonato do desastroso Leonel Brizola para não “bater em morto”)

E agora com Freixo temos a chance de levar o hepta. Já pensaram? Marcelo Freixo, um candidato que defende black blocs (quando conveniente), desarmamento da polícia, sexualização da educação, criação de novas secretarias... sem falar nas ideias comunistas do século XIX, aquelas que deram tão certo na Venezuela, em Cuba e na Coréia do Norte.

Freixo não respeita a propriedade privada, afirma que a quebradeira anárquica dos black blocs é um “movimento legítimo”. Max Weber preconizou que “o Estado é o ente que detém monopólio da violência legítima”. Freixo discorda, acha que qualquer causa idiótica legitimiza a violência – ou seja, não concorda com o conceito de Estado. Portanto, concorre para um cargo que considera inútil. Você, eleitor de Freixo, é mera massa de manobra.

Freixo paz e amor entende que de nada adianta prender um bandido. Ou seja, todos os países do mundo estão errados em ter um código penal e um sistema prisional, e o Rio de Janeiro vai mostrar para todos como se combate violência com inclusão social. Esta é uma piada melhor do que qualquer das memes sobre o candidato que viralizaram nas redes sociais. Se pudesse, Freixo soltaria todos os bandidos presos, ele defende anistia. Soltaria desde Beira-Mar até o camarada Palocci, tornando o experimento ainda mais “cool”. Em seu primeiro ato, caso seja eleito, Freixo poderia decretar luto oficial pela morte recente de Fat Family, mais uma vítima da sociedade.

Freixo tem este discurso bacaninha sobre inclusão social mas trata-se da mais pura hipocrisia. Como já apontado em diversos artigos, o amigo dos bandidos anda pela cidade munido de guarda-costas e carro blindado. Estaria com medo dos coitadinhos? Quando se sentiu ameaçado, há alguns anos, foi passar um tempo na Espanha. ¿ Qué te pasó, muchacho ?

Em terras opressoras, funciona diferente. Nova Iorque consertou a violência urbana com a política de tolerância zero de Rudolph Giuliani. Quem pichava o muro, ia para a delegacia passar uma noite. Idem quem pulava a roleta do metrô. Isso constrangia o delinquente perante sua família e o desmotivava a seguir na carreira do crime. Funcionou... e como funcionou. A segurança levou mais negócios e turistas à cidade, que hoje contabiliza 60 milhões de visitantes por ano, sendo 12 milhões de estrangeiros.

E como seria o Rio de Janeiro de Freixo e de suas ideias malucas de segurança pública? Combater violência urbana com mais iluminação pública e menos polícia soa como plataforma do século XIX ou de vilarejo na Finlândia. A única segurança desta sandice é que vai, seguramente, acabar de vez com o turismo na cidade. Quem já assistiu ao filme-B “The Purge” tem uma ideia de como será o cotidiano carioca com Freixo no ”comando”.

As alas “do bem” esquecem que o bandido de 10 anos de idade, que já pega em armas e mata, é produto das políticas “progressistas” dos 13 anos de PT. Este sujeito não viveu sob a opressão de partidos de direita no governo federal, servindo de evidência empírica quase imaculada para desconstruir a tese de que inclusão social – por si só – serve de receita ou remédio para a questão da violência urbana... É frouxidão, com trocadilho.

O discurso descolado de Freixo enganou até o bobalhão do Capitão Nascimento... talvez não o capitão da vida real, mas o do filme – Wagner Moura – não se cansa de rasgar seda pro candidato. Ah, o Rio, capital da cultura e seus intelectuais de vanguarda, sempre apressados para abraçar publicamente e vocalmente o que há de pior. O capitão personagem é bem mais esclarecido.

É um milagre que cidade e estado ainda funcionem, mesmo que mal e porcamente, após tantos danos impingidos por seu eleitorado boçal. Que outra sociedade teria resistido a um retrospecto como o do nosso hexa?

Mas será que o Rio aguenta o hepta? "E o ai, Jesus"... seria um desgosto profundo.

(P.S. torcendo apenas para o hepta do Mengão)


Thursday, August 11, 2016

Vaia que é tua, Brasil!!


Os Jogos Olímpicos do Rio estão rolando a todo vapor. Claro, houve problemas de organização, de logística e de abastecimento, já esperados e também observados em outras edições dos Jogos.

Canos entupidos na vila e piscina com água verde vão dar pano para manga, mas é tudo coisa pouca perto da festa do esporte e da confraternização dos povos. E o Brasil parece o lugar ideal para confraternizar, com sua gente alegre e hospitaleira.

Há, no entanto, uma importante ressalva. O brasileiro não sabe usar corretamente o instrumento da vaia. Assim como ainda não aprendemos a usar o voto, falta-nos o entendimento do que representa a vaia e de como ela deve ser aplicada.

Por exemplo: vaiar Michel Temer na abertura dos jogos é uma burrice inenarrável, qualquer que seja sua orientação política ou partidária. Trata-se de um momento solene, onde Temer representava o país-sede dos Jogos, e não uma corrente partidária. Vaiá-lo perante os olhos do mundo inteiro é lavar roupa suja em público. Pior: é vaiar a si próprio como anfitrião dos Jogos.

De todas as reclamações dos atletas, comitês e espectadores estrangeiros, a mais procedente é o mau uso da vaia pelo público brasileiro durante as competições. Cabe-nos refletir sobre o assunto, fazer uma autocrítica e tentar subir alguns degraus no ranking da educação.

O ato de vaiar uma pessoa expressa um repúdio ao fato de ela estar ali. Ou seja, quando entra em quadra um atleta argentino ou uma equipe prestes a enfrentar o Brasil, a vaia significa que a torcida brasileira não entende que aquela presença é apropriada ou merecida.

Traduzindo: um atleta que treinou durante anos, logrando o direito de competir no mais alto nível de sua modalidade e representar seu país, é vaiado só porque nasceu em determinado lugar ou porque vai disputar com o Brasil? Isso é diferente de vaiar alguém pelo fato de ele ser branco, negro, pardo, índio ou amarelo?

Público e mídia brasileiros, com razão, adoram histórias de atletas que abdicaram de tudo pelo esporte. Ocorre que a maioria dos atletas olímpicos está aqui porque abriu mão de muito para treinar e chegar aonde chegou. Claro que alguns países têm mais estrutura que outros, mas vaiar o atleta – qualquer que seja – é desqualificar seu merecimento de lá estar competindo.

Se o público vaia, a mensagem é que não quer o atleta ali. Ou seja, preferia que o Brasil vencesse por WO. Então, porque o espectador que vaia paga o ingresso ou assiste na televisão? Se ele vaia, ele não quer ver o espetáculo, pois sem a presença do adversário não há jogo, não há emoção, não há celebração do esporte e não há festa.

Da mesma forma, vaiar um ponto do adversário denota um sentimento de que ele não deveria se esforçar para derrotar o Brasil. Ou, em outras palavras, que o público preferia que o adversário entregasse o jogo ou fizesse corpo mole, maculando o espetáculo. Em resumo, ao vaiar um adversário ou um argentino, o espectador brasileiro está vaiando os Jogos Olímpicos por tabela.

A vaia cabe (e muito) quando há uma atitude antiesportiva, uma falta violenta, um gesto desrespeitoso perante torcida, oponente ou juiz. Fora isso, o que vale é torcer mais alto e vibrar mais intensamente, sabendo ganhar e perder, aprendendo a ser mais educado e ensinando ao mundo como fazer festa.

Ainda dá tempo de virar esse jogo.



Friday, May 27, 2016

Os 33

“Os 33” é um filme que mostra a história dos 33 mineiros que ficaram soterrados depois do desabamento de uma mina de cobre no Chile. O acidente ocorreu em 2010 e, graças a um trabalho coordenado e eficiente de autoridades e técnicos, todos os 33 trabalhadores foram resgatados com vida após incríveis 69 dias aprisionados a 700 metros de profundidade. Esta operação de salvamento, merecidamente, é motivo de orgulho nacional no país.

No Brasil, também temos nossos “33” – os trinta e três bárbaros que recentemente promoveram e filmaram o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos. Não há palavras para descrever esta monstruosidade. Ela é a antítese do resgate chileno, pois soterra a sociedade ordeira sob o medo e a desesperança.

Estupro é crime hediondo. Filmá-lo é requinte de crueldade.  Estupro coletivo com 33 homens, no entanto, ganha status de tortura.

Os parlamentares e artistas de esquerda que – com razão – se enojam quando Bolsonaro enaltece um ex-torturador, têm suas mãos manchadas de sangue. São os mesmos defensores dos direitos humanos que esperneiam contra a redução da maioridade penal, criando espaço para que a barbárie-mirim tenha salvo-conduto. Ou seja, de uma maneira tortuosa defendem bandidos e torturadores.

Segurança é uma aspiração básica do ser humano, como já postulou Maslow. Violar o estado de segurança significa afrontar um direito elementar da população e um dever primo do governo. Molon, Jean Wyllys, Chico e outros pseudo-intelectuais são lenientes com os marginais que estupram um direito básico das pessoas de bem. E ainda se proclamam "defensores dos direitos humanos". É lamentável.

(Parêntesis: Resta absolutamente inaceitável que Marcelo Freixo integre a comissão de direitos humanos da Alerj, pois ele faz parte da trupe que defende as “vítimas da sociedade”).

Décadas de legislação frouxa e penas brandas, principalmente para “menores”, aliadas ao desastre econômico do país, nos levam a uma situação de segurança urbana caótica. Força militar em São Luís, estupro coletivo no Rio... Onde vamos chegar?

Não é possível combater bárbaros com pombos da paz. É imperativo que a sociedade se aglutine para reclamar o dever básico do Estado de prover segurança e ordem. Para isso é necessário um arcabouço legal poderoso, com redução da maioridade penal, tolerância zero a pequenos delitos e uma discussão sobre pena de morte para crimes hediondos – sem ideologias partidárias e sem tabus. Não há espaço para discurso “paz e amor” enquanto vidas e famílias são destruídas. Se a CPMF é necessária transitoriamente para atravessarmos o vale, talvez a pena de morte para certos crimes também seja?

Esses estupradores são piores do que os torturadores militares. Não cumpriam ordens, agiam por total livre arbítrio. Sabiam exatamente o que faziam e se gabaram disso nas redes sociais. Se a sociedade sacrifica animais domésticos com distúrbios mentais – sabendo que os coitados não têm consciência do perigo que representam – por que preservar torturadores selvagens que mutilam vidas enquanto gozam de suas faculdades mentais? Bárbaros desta estirpe têm que ser eliminados do convívio social logo na primeira demonstração do que são capazes – não importa a idade. Cabe ao Legislativo, em conjunto com a sociedade, discutir a melhor maneira de fazê-lo. Mas temos que fazê-lo o quanto antes, ou então todos teremos as mãos manchadas de sangue inocente.


Tomara que a jovem e sua família encontrem abrigo no Chile ou em algum outro país sério, onde poderão viver uma vida digna e segura, e onde a sensação de civilidade lhes permita enterrar o passado a 700 metros de profundidade.



Tuesday, May 24, 2016

MinCana que eu gosto!

Artistas reclamando sem parar sobre o fim (efêmero) do MinC, que novidade... Nossos artistas adoram reclamar, mas não percebem que quem reclama muito perde a coerência em algum momento.

Reclamaram da meia entrada mas pedem maior disseminação da cultura.

Reclamaram dos sistemas de compartilhamento de arquivos mas querem que a cultura chegue aos mais pobres.

Reclamaram da censura no regime militar mas se apressam em censurar biografias não-autorizadas.

Reclamaram do fim do MinC mas não comemoraram seu retorno.

Os artistas adoram aparecer defendendo os “fracos e oprimidos” com discursos fatigados de esquerda. E não é só aqui no Brasil: Sean Penn e Danny Glover servem de exemplos patéticos em outras terras. Assim como Chico, Caetano e outros tupiniquins, dizem-se defensores da democracia mas enaltecem Chávez e Castro.

O caso de Cuba, um hit no meio artístico, é risível. Como alguém que se proclama democrata faz apologia de um regime que ocupa o poder há quase 60 anos sem nunca ter recebido um voto sequer? Licença poética tem limite.

Caetano, há muitos anos, cantou sobre os “ridículos tiranos da América Católica”. Hoje, Caetano sobe no palanque para eles. Somos uns boçais.

***

O chororô sobre o fim do MinC foi uma questão territorial, mascarada por um pretenso altruísmo de espalhar a cultura que – na verdade – inexiste na agenda dos artistas. Os artistas perderiam espaço com mudança de status da pasta e teriam que competir com outras frentes de lobby na defesa de seus interesses. Simples assim: foi uma motivação econômica.

Duvida? Então pergunte-se o porquê destes artistas cobrarem cachês tão elevados para shows de réveillon. Não se trata de uma festa popular e, portanto, uma ótima oportunidade de difundir cultura para todas as classes sociais? Atacam biografias não-autorizadas para não esvaziar o interesse (e o lucro) de suas eventuais auto-biografias ou biografias autorizadas. São lindos os burgueses.

O fato é que esses artistas chorões enriqueceram como nunca na era PT, mesmo com sua produção artística caindo. Tomem-se, por exemplo, Chico e Caetano, que – entre 2003 e 2016 – produziram menos material de estúdio (isto é, novas canções) do que entre 1994 e 2002. E, a julgar pelo resultado das vendas de CDs, o escasso material inédito contou com menor aprovação do público. Mas e daí? Lançaram inúmeros CDs ao vivo e coletâneas, reciclaram a cultura e tiveram bons lucros com isso. Logo eles, os bastiões da intelectualidade artística reaproveitando material.

Não há nada errado em os artistas ganharem dinheiro. Chico, Caetano, Gil, Piovani, Kéfera, qualquer um. O material artístico é um produto, cujo sucesso dependerá de sua qualidade, mas também de fatores como sorte e quantidade de capital investido em marketing. Uma vez entendida esta dinâmica, desconstrói-se a noção de que o artista famoso é – automaticamente – um intelectual. 

O que há de errado é artistas consagrados – aqueles que não precisam do suporte do dinheiro público – serem os maiores beneficiários da Lei Rouanet, independente de haver ou não corrupção no processo. Trata-se da subversão da “cultura para todos” alardeada por Chico, Caetano e Gil. É o mesmo que o BNDES emprestar dinheiro (como de fato o faz) para Usiminas, Oi, e outras empresas grandes que têm acesso ao mercado de capitais, preterindo assim o pequeno empresário, aquele que realmente gera emprego e renda. O monopólio do capital subsidiado é idêntico ao monopólio da cultura incentivada: requentamos empresas falidas e artistas monotônicos. E ainda queremos ganhar Palma de Ouro quando, em realidade, merecemos palmadas.

"Cultura para todos, conquanto que eu seja o mensageiro". "Democracia na Venezuela desde que o Chavismo se mantenha no poder". "Impeachment é golpe! Fora Temer, impeachment nele". São estes os nosso intelectuais?

Os protestos de Chico, Caetano, Gil, Frejat, Fernanda Montenegro e afins sobre o fim do MinC constituem um magnum opus de hipocrisia e advocacia em causa própria. Nunca se vê esta turma pleiteando recursos para as escolas de música nas favelas, ou oficinas de teatro gratuitas, ou mesmo fazendo shows de graça. Sugestão: podem rodar Venezuela, Cuba e Coréia do Norte, pagando do próprio bolso e fazendo espetáculos gratuitos. Exerçam seus podres poderes em outras bandas, o Brasil já cansou de vinho tinto.

Com os ânimos exaltados de hoje, herança maldita do PT, se cada paisano e cada capataz der ouvidos ao discurso cansado e falido dos artistas, infelizmente faremos jorrar sangue demais. 



Monday, April 18, 2016

Sonho grande – Carta aberta a Michel Temer


Excelentíssimo senhor Temer,

Junto a outros milhões de brasileiros cansados de assistir à deterioração do Estado brasileiro, enchi-me de esperança com a vitória do impeachment na Câmara dos Deputados. Nós brasileiros depositamos nossa esperança em seu vindouro governo, que terá a hercúlea tarefa de reparar tantos males causados por treze anos de lulopetismo.

Tento não perder o ânimo quando leio sobre seus possíveis homens de confiança e eventuais ministros. Trata-se de um momento muito delicado: retrocedemos algumas décadas sob a batuta petista e urge recuperar o terreno perdido. Neste momento, um ministério de indicações políticas trará um custo gigantesco para o Brasil e nos colocará de vez numa espiral viciosa que destruirá mais algumas décadas.

Ao contrário, o momento é de descrença na classe política: este foi o grande legado do PT, infelizmente. De forma a conquistarmos a mínima credibilidade necessário para que o país tenha fôlego para implementar as reformas necessárias, é preciso empossar um ministério de “craques”. Por isso, escrevo-lhe com o intuito de compartilhar meu “sonho grande”.

A começar pela pasta do Planejamento, não podemos prescindir de um minucioso controle de despesas e de maior eficiência dos gastos públicos. Felizmente, o Brasil conta com o mais bem-sucedido time de gestores especializados em racionalização de custos, o vitorioso time da 3G. Marcel Telles é um ótimo nome para o Planejamento, pois coordenaria com mão firme o uso virtuoso dos recursos públicos bem como instalaria sistemas de meritocracia em diversas esferas governamentais – ou seja, tudo o que ele já fez no setor privado com estrondoso êxito em repetidas ocasiões.

No Ministério da Fazenda, Armínio Fraga é obviamente um excelente nome. Mas ele já traz consigo uma certa bagagem pelo fato de já ter ocupado a presidência do Banco Central e de ter “participado” da campanha eleitoral de 2014. Há outros da mesma estirpe que entregariam a mesma excelência de gestão e resultados. Andre Jakurski, por exemplo, é um ótimo nome: gestor brilhante, com formação de primeira linha e capaz de pensar no curto, médio e longo prazos.

Para o Banco Central, há apenas um nome: Luis Stuhlberger, o “mestre Yoda” dos gestores financeiros, uma lenda viva. Quer operar contra o Banco Central? Faça-o por sua conta e risco, pois do outro lado estará um dos melhores gestores do mundo. Certamente, conquistaríamos uma credibilidade valiosa na condução da política monetária.

Na pasta da Educação, prefiro me abster de propor qualquer nome. Sugiro que, para esta nomeação, consulte-se o empresário brasileiro que mais investiu em educação ao longo destes anos: Jorge Paulo Lemann. Ele não só idealizou diversos programas de sucesso, como também insiste em se manter na fronteira da excelência no campo educacional, empregando para tal os melhores profissionais do mundo.

Nas pastas da Indústria e Comércio, Agricultura, Cultura e tantas outras é imperativo que sejam escolhidos empresários dos respectivos setores. Os empreendedores sabem melhor que ninguém quais são os gargalos do seu respectivo setor, quais são as armadilhas, qual a destinação ótima dos recursos públicos. Não temos tempo para testar tecnocratas ou programas de nomes mirabolantes – precisamos de eficência em toda a cadeia produtiva. Felizmente, o Brasil é repleto de empresários de sucesso, que sobreviveram a diversos pacotes econômicos, à hiperinflação, ao calote da dívida externa, ao confisco da poupança e que seguem produzindo resultados apesar do ambiente hostil a negócios que se instalou no país. Precisamos deles no comando.

Com estes craques em campo, teríamos a credibilidade necessária para adotar uma política supply-side que nos livre de remendos fiscais como CPMF e outras aberrações. Poderíamos, já no curto prazo, ter mais eficiência, reduzir custos, baixar impostos e juros. Qualquer outra agenda numa economia que tributa 40% do PIB (além de outros 10%, 20%, 30% do PIB em serviços que o Estado não presta adequadamente e que o cidadão tem que contratar) será fadada a “bater no muro”. Precisamos cortar impostos, com a contrapartida de aumentar a eficiência do Estado, de modo que a economia cresça. E, com isso, gere mais arrecadação: só que, desta vez, pelos motivos certos.

Por que pessoas tão bem-sucedidas aceitariam o risco de trabalhar no governo? Porque o senhor lhes dará autonomia para fazer o que deve ser feito. Porque o Brasil precisa deles para retomar o rumo correto. Porque estas pessoas também desejam um país melhor para seus filhos e netos. Porque o empresariado  brasileiro é generoso e atenderá o chamamento de reconstrução.

O senhor e sua equipe política saberão conduzir com maestria  a agenda em Brasília, o que não será trivial sob a raivosa oposição petista. No entanto, o senhor detém o cacife político necessário para aglutinar o parlamento e instalar as reformas urgentes. Poderemos finalmente tirar do papel as reformas da previdência, política e constitucional. Precisamos de arcabouços que nos dêem a flexibilidade necessária para termos competitividade no século XXI, e já partimos com duas décadas de atraso.

Vamos suar a camisa e recuperar o “tempo perdido”, afinal de contas “nosso suor sagrado é bem mais belo que este sangue amargo” petista.

Boa sorte ao Brasil.



Tuesday, March 22, 2016

Ippon

“Não vai ter golpe”. Este é o novo brado dos petistas, dos “intelectuais” e daqueles que participam dos protestos pró-Dilma mediante pagamento e lanchinho. A própria presidente vem usando o bordão em todos os seus discursos desde que sentiu que realmente seu cargo está ameaçado por todos os flancos possíveis. 

A maior ironia é que já houve golpe. Ou melhor: golpes, no plural. E todos eles perpetrados pelo PT. Surpreso? Então o bonde da História passou e você não percebeu.

O primeiro golpe petista foi usurpar o “Bolsa Escola”, programa iniciado no governo FHC e com regra objetiva de eligibilidade: criança na escola. O PT encampou a autoria do programa, deu-lhe novo nome, alardeou o “Bolsa Família” aos quatro ventos e conferiu-lhe proporções paquidérmicas. Criou um assistencialismo sistêmico e contraproducente, desincentivando a busca pelo emprego e pela capacitação. Convenientemente, tornou os milhões de beneficiários dependentes do estado e com isso comprou seu voto nas eleições seguintes.

O golpe seguinte foi o mensalão. Segundo o Wikipedia, tratou-se de “escândalo de corrupção política mediante compra de votos de parlamentares no Congresso Nacional do Brasil”. Falhamos grosseiramente como República: como pôde um governo que engendrou este esquema manter-se no poder? Pior: foi reeleito, já que seu messiânico líder “não sabia de nada”. Golpe triplo: golpe nas finanças público/partidárias, golpe nas instituições e golpe na moralidade.

Seguiram-se golpezinhos aqui e ali. Compras de medidas provisórias, venda de empresa para conglomerados telefônicos, e outros. Coisa pouca, nem merecem maiores comentários. No meio do caminho, elegeu-se um poste.

Eis que, em 2014, veio outro grande golpe: o maior estelionato eleitoral do século. Dilma, candidata à reeleição, foi a público diversas vezes afirmar – dentre outras coisas – que a inflação estava controlada, que a conta de luz não aumentaria, que seu governo mandava investigar “doa a quem doer” e tantas outras mentiras premeditadas. Na esteira de um “Bolsa País”, lançando mão de terrorismo eleitoral e contando com uma tardia adesão do messias Lula à sua campanha, Dilma se reelegeu. Mas bastaram apenas três meses para a máscara cair com a escalada da operação Lava-Jato, a explosão da inflação e do desemprego e uma recessão “nunca antes vista na História desse país”.

E agora? Não bastasse a gestão temerária, há inúmeras evidências de dinheiro ilegal nas campanhas, e tantos outros “malfeitos” que tornam o governo de Dilma insustentável. Os poderes judiciário e legislativo, na melhor forma de exercício de sua independência, seguem os ritos necessários para interromper um governo que não goza mais de moral. Ritos estes previstos na Constituição. Onde está o golpe?

Os petistas e seus boçais simpatizantes deveriam ouvir o que disse o ex-camarada (agora coxinha?) Roberto Freire na instalação da comissão do impeachment. Lembrou aos petistas que o PT clamou pelo impeachment de Collor, depois pelo impeachment de Itamar e por fim de FHC, sempre invocando um mecanismo constante da Constituição. Este mesmo mecanismo é golpe agora? – perguntou Freire.

Esquecem os petistas – e principalmente Dilma – que o poder emana do povo e em seu nome é exercido. Dilma e PT têm reprovação de 70% da população e, portanto, não representam mais a sociedade. Dilma perdeu várias oportunidades de renunciar com dignidade, sairá do governo pela porta do fundos e passará para a História como uma personagem cômica, aquela que estocava vento e que envergonhava sua nação. E pensava-se que vergonha era o Tiririca...

O que fazem então os petistas? Tentam aplicar novo golpe e criam a cortina de fumaça do "não vai ter golpe" na melhor escola Goebbels. A verdade é que, mais uma vez, na 13ª hora (número maldito!) surge Lula-messias para se abraçar ao governo. Esse grandioso desejo de colaborar tem, para qualquer observador com meio neurônio, dupla finalidade: escapar da cadeia (a investigação “doeu” nele) e tentar articular alguma governabilidade para Dilma (sabe-se lá a que custo para o erário) de modo que a farra petista ganha alguma sobrevida.

Acontece que a sociedade cansa. O legislativo cansa. O judiciário cansa. Um golpe atrás do outro cansa. Dessa vez, não vai ter golpe mesmo. A sociedade não aceitará mais um golpe do PT.

A sociedade, esta sim, é que vai aplicar um golpe. Um golpe que mostre que a Constituição ainda vigora e que, sim, o poder emana do povo. Um golpe que fortaleça nossas instituições acima de qualquer partido ou cidadão. Um golpe que acabe de vez com partidos e políticos que se vestem de uma ideologia falida para esconder sua verdadeira agenda.

Pensando bem, não vai ter golpe. Vai ter um ippon.


Tuesday, March 8, 2016

Primeira Exibição

Nos anos 80, a porta de entrada de um filme na grade da Rede Globo era o “Primeira Exibição”. Tratava-se da sessão que ia ao ar aos sábados logo após a novela da oito, sempre trazendo um filme inédito na TV brasileira. Depois de debutar no Primeira Exibição, o filme passava a fazer parte do catálogo da Rede Globo e ocasionalmente era reprisado na Sessão da Tarde, no Corujão, ou em outros programas.

Como ocupavam um horário nobilíssimo, os filmes do Primeira Exibição eram esticados ao limite da paciência do telespectador para incluir o máximo de inserções comerciais. O filme começava na “parte 1”, mas logo no primeiro momento de maior tensão já vinha o primeiro intervalo comercial. Voltava na “parte 2” e, de novo quebrando o clímax: intervalo comercial. E assim iam seguindo “parte 3”, “parte 4”, “parte 5”. Quando o mistério ia ser desvendado quase no finzinho do filme... intervalo comercial!!?! Então, após longa espera, o filme retornava com o gerador de caracteres mostrando “parte final”, parte essa que demorava meros três minutos, mas que constituia o desfecho indispensável da história.

Com esse expediente, a sessão do Primeira Exibição demorava o dobro do tempo do filme em si. E, apesar do abominável intervalo comercial derradeiro, a “parte final” era indispensável e imperdível, mesmo às altas horas.

**

Depois de algumas décadas, o “Primeira Exibição” está novamente no ar. O Brasil está prestes a estrelar um filme nunca antes exibido – a destituição de um governo populista, caudilho, corrupto e miliciano sem que haja derramamento de sangue. Os filmes que a História nos mostra na Sessão da Tarde são diferentes, envolvem luta armada, guerra civil, ou outro sortimento de sacrifício de vidas humanas quando cai o castelo de cartas.

O governo petista, apesar da inflamação recentemente ensaiada por Lula, não tem mais força para mobilizar as massas. Seus repetidos e acintosos “malfeitos” erodiram completamente seu capital político. Basta ver os ridículos movimentos pró-Dilma que pipocam aqui e ali, contando com cinquenta pessoas, todas elas remuneradas pelo gordo orçamento corrupto do PT, sindicatos, e afins. A “multidão” vermelha que apoiava Lula quando ele terminou seu depoimento em Congonhas contava com algumas dezenas de gatos pingados. E Lula ainda acha que dá para guerrear, segundo a nobre deputada cujo vídeo vazou. A platéia já está cansada e espera ansiosamente a “parte final”.

A queda do PT será como o Primeira Exibição: demorou muito mais do que deveria por conta dos intervalos. Lula e sua gangue já deveriam ter sido enxotados no escândalo do mensalão. Mas o boom das commodities gerou renda e engordou os programas sociais, o que – aliado à propaganda nazista do PT que tomou para si a autoria dos ventos de progresso – parou o filme para um grande intervalo.

Contudo, o roteiro foi ficando mais denso, a trama começou a ser revelada, a indignação seguiu crescendo e, em 2013, as manifestações ganharam corpo e o povo foi às ruas. O governo balançou, mas contra-atacou reduzindo impostos de carros e geladeiras, mandando que os bancos públicos abrissem as torneiras do crédito e turbinando ainda mais os programas sociais. Arrancou, com isso outro, intervalo: e tome comercial do governo no horário nobre financiado com o dinheiro público.

Mais à frente, o PT ainda conseguiu cavar outro break com o estelionato eleitoral de 2014. Quem não se lembra de Dilma afirmando que a inflação estava sob controle, que a conta de luz não ia aumentar e tantos outros sofismas?

Mas o filme volta a rodar. Na tela, vê-se o trabalhador desempregado, a saúde pública de joelhos, os impostos escorchantes, os escândalos sem fim, a sociedade civil se aglutinando em busca de um futuro melhor... O roteiro esquenta de vez, mas aí vem outro intervalo: manobras daqui e dali, recesso, Carnaval. “Parte 3”, “parte 4”, “parte 5”... Vai chegando o final do filme: a polícia finalmente fecha o cerco no chefão, a tensão cresce: o que vai acontecer? Intervalo de novo?


Só que alguma hora o filme vai acabar. Por mais que o intervalo final seja longo e detestável, ele termina e o desfecho da história é então revelado. Dia 13/3, o filme voltará a rodar, começará a “parte final” e o Brasil fará História.


Friday, March 4, 2016

O país dos desalmados

(Com a colaboração de Ricardo Jourdan)

A declaração do ex-presidente Lula – “não existe, neste país, alma viva mais honesta do que eu” – causou alvoroço. Os milhões de brasileiros que cansaram do PT e se enojam com o mar de lama em que nosso país está metido se revoltaram. Os aliados de Lula o enalteceram, tudo com um clima muito acalorado.

No entanto, sob a calma da lógica e da matemática, é possível demonstrar que a afirmação de Lula tem baixíssima probabilidade de ser verdadeira. Tão baixa que, estatisticamente, rejeita-se a hipótese de ela ser verdadeira.

O exercício é, na verdade, muito simples.

A hipótese implícita na afirmação de Lula é de que, dentre os mais de 200 milhões de indivíduos que residem no Brasil, não há um sequer mais honesto do que ele. Não chega a ser tão improvável como acertar a mega sena (1 chance em 650 milhões), mas está longe de ser um evento trivial – é análogo à probabilidade de acertar a mega sena com 3 apostas.

Só isso já bastaria para rejeitar a hipótese. Mas, aplicando-se uma análise dinâmica é possível descreditar ainda mais a afirmação do ex-presidente.

Cada cidadão tem, em sua consciência, uma zona branca (atitudes e condutas corretas), uma zona preta (atitudes e condutas erradas) e uma área cinzenta no meio. Ocorre que a extensão da região cinzenta varia de pessoa para pessoa e, durante o decorrer da vida, mesmo as pessoas honestas são  confrontadas com situações onde optam por trafegar em sua zona cinzenta.

É seguro afirmar que Lula (e políticos em geral) têm regiões cinzentas bem mais extensas que o cidadão comum de bem. Isso faz parte do jogo político, onde muitas vezes há que se fazer escolhas difíceis e lidar com situações de conflito de interesses. Por exemplo: é honesto usar dinheiro público para construir um estádio de futebol para um time que tem enorme torcida – deixando, portanto, um monte de gente feliz e gerando empregos– quando este time por acaso é o seu time de coração? São questões difíceis.

Durante sua longa carreira sindical e política, Lula inevitavelmente pisou no campo cinzento em diversas empreitadas (oops, ato falho) e o fez com muito mais frequência que o brasileiro honesto. Assim, ao afirmar que dentre os mais de 200 milhões de médicos, engenheiros, autônomos, e outros tantos profissionais não há ninguém mais honesto do ele, Lula constrói uma aberração estatística e destila arrogância ímpar. Rejeita-se esta hipótese com louvor.

Esta conclusão é probabilística: não é política, nem partidária e nem elitista. Deriva da lei dos grandes números. É como jogar o dado um milhão de vezes – quase que certamente ocorrerá uma sequência de dez “6” seguidos, embora se o dado fosse jogado apenas vinte vezes esta sequência seria improvável.

Dessa forma para que a afirmação de Lula seja verdadeira, o Brasil teria que ser como a cidade de Nova Iorque no filme “Eu sou a lenda”, estrelado por Will Smith. Com o detalhe de que o cachorro já teria que ter morrido e assumindo que os zumbis não têm alma.


Ou então, somos um país de desalmados.

Carta de renúncia

(Sugestão para a eventual renúncia da nossa Presidenta)


Queridos povo brasileiro e póvoa brasileira,

No meu governo, eu investigo. No meu governo não há meta, para que, depois de atingida a meta, possamos dobrar a meta. Cumpri minha missão: investigamos, prendemos e mais do que dobramos a meta de criminosos que estão com a mandioca assando. Mostra que evoluímos e, como Mulher Sapiens, fico muito orgulhosa.

Meu ciclo terminou. Como a mosquita que põe ovos, eu renuncio à Presidência da República com a certeza de que estoquei bons ventos para as gerações futuras.

Depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela não volta mais para dentro do dentifrício. Deixo o cargo exatamente com este sentimento: de que as investigações que meu governo começou não podem ser revertidas. Afinal, está chovendo.

Peço ao novo governo que olhe pelas crianças e pela figura oculta atrás delas. Elas são o futuro do país.

Tuesday, February 16, 2016

O Pavilhão do Atraso

(Inspirado na brilhante ideia do meu amigo Andre Zaru)

O Museu do Amanhã foi recentemente inaugurado no Rio de Janeiro. Apropriado, não? País do futuro, Museu do Amanhã. É um futuro que nunca chegou e, do jeito que vai, nunca chegará. Se o museu fizer jus ao nome, o acervo será riquíssimo: inflação, desemprego, insegurança social, impostos. Tudo isso faz parte do nosso avenir.

Mas, para crianças e jovens, é importante estudar a História, para que entendam como pudemos chegar a este ponto. Portanto, parte do espaço no entorno do Museu do Amanhã poderia ser usado para abrigar o “Pavilhão do Atraso”, museu dedicado a ajudar as novas gerações a entender o porquê de o Brasil ser tão pobre socialmente, institucionalmente, tecnologicamente e, cada vez mais, economicamente.

Para acessar o Pavilhão do Atraso, o visitante teria que comprar seu ingresso na hora, pois não haveria venda pela internet. Ele entraria numa fila para pegar uma senha que lhe desse acesso à bilheteria. O pagamento seria somente em dinheiro, sendo que não seria garantido troco para notas acima de R$ 20. Cidadãos cariocas teriam direito a desconto na entrada, mediante a apresentação de cinco diferentes comprovantes de residência e últimos três carnês do IPTU (no caso de residir na cidade há menos tempo, seria necessário dirigir-se à Prefeitura para validar o desconto). Obviamente que os caixas vão conferir todas as cédulas e moedas para evitar falsificações, afinal todo mundo quer levar vantagem em tudo, não é mesmo?

Ao adentrar o Pavilhão do Atraso, o visitante estaria no Grande Hall dos Impostos, imponente sala recheada com bustos das siglas dos nossos noventa e tantos impostos, contribuições e taxas. Tudo em granito escuro, representando a transparência que o cidadão tem sobre o uso destes recursos. O observador atento notaria espaços vazios no Grande Hall, pois nossos legisladores certamente criarão novos impostos (para financiar a agenda progressista) e estes teriam seus bustos prontamente adicionados à coleção.

Em seguida, haveria uma sala intitulada “Cartórios: das Capitanias aos tempos atuais”, expondo a evolução desta tecnologia luso-brasileira. O acervo contaria com painéis mostrando a evolução dos selos cartorários ao longo dos séculos, dentre outros ítens de memorabilia.

Outras salas de destaque seriam a imponente “Caos na saúde pública: Peste bubônica, dengue, zika”, a surpreendente “Engarrafamentos e alagamentos urbanos através dos tempos – um registro multimídia” e a importante “Profissões tipicamente brasileiras: frentista, ascensorista, cobrador de ônibus, flanelinha e outras relíquias”. Sem esquecer de “Nossas conquistas trabalhistas”, com inestimáveis rascunhos e manuscritos que contribuíram para a gloriosa CLT. Em todas as salas, o visitante seria brindado com o que há de melhor na tecnologia nacional de improdutividade, culminando com “A grande sala dos carimbos”.

Contudo, a principal atração do Pavilhão do Atraso seria sua ala interativa, onde adultos e crianças poderiam colocar em prática diversos conceitos explorados na parte expositiva da visita. Haveria longas filas para cada sala (e não seria possível reservar horários com antecedência), mas com certeza a espera valeria a pena. Uma observação importante: para obter acesso à ala interativa, seria necessário conservar o canhoto do ingresso e depois carimbá-lo com a data de uso, serviço este disponível no guichê próximo aos banheiros. Isso evitaria que os espertos burlassem o sistema e reutilizassem ingressos. Tudo muito pensado e dimensionado.

A primeira atração interativa seria o “Fiorama”, uma cidade em miniatura onde todo o cabeamento elétrico é aéreo, reminiscência do século XIX. Os visitantes teriam as tarefas de substituir transformadores queimados, podar árvores que possam causar rompimento dos cabos e restaurar postes mal conservados com risco de cair. Será necessário um número elevado de participantes para que a cidade funcione bem, mas poucos times conseguirão concluir a atividade sem quedas de energia. Um realismo incrível.

Depois, haveria o concorridíssimo “Correio de Curitiba”. Nesta atividade, os participantes simulariam uma unidade postal onde chegam várias importações. O objetivo de cada equipe é demorar o maior tempo possível para liberar os pacotes e maximizar a taxação, com pontuação extra para extravio de mercadorias e taxação indevida.

Uma etapa importante seria a “Terra brasilis”, onde os visitantes aprenderiam sobre extrativismo, esta nossa brilhante atividade-mãe. Haveria um rio artificial para a prática do garimpo de pepitas de ouro, uma mini mina de minério de ferro para exploração, e uma mini fazenda para a colheita de café, cacau e outros produtos. Afinal, somos um país rico, nossa terra nos dá tudo.

O ápice da visita seria a “Viagem ao centro da lama”, onde diversos participantes competiriam por uma vaga no Congresso Nacional, numa emocionante simulação eleitoral. Cada candidato escolhe sua estratégia: filiar-se a uma legenda-de-um-nome-só para ser eleito de carona, aliciar diretores de estatais para financiar sua campanha prometendo favores se eleito, candidatar-se por estados onde nunca esteve, dentre outras. Estratégia e adrenalina puras.

E, para desanuviar o sistema nervoso, o tour seria encerrado no salão “Ela disse, Ele disse”. Neste suntuoso espaço multimídia, através de monitores CRT de última geração, os visitantes poderiam apreciar diversos discursos, entrevistas e declarações das autoridades brasileiras através dos tempos. Haveria muito material antigo, mas os tempos atuais estariam bem representados com “estocar vento”, “atrás da criança sempre tem um ser, que é um cachorro”, "a mosquita" e, claro, várias versões do “não sei de nada”.

Ao final do passeio, haveria uma área com redes e coqueiros para aqueles que desejem descansar, além de telões mostrando jogos de futebol. Tudo ao som de sambas-enredo e marchinhas de carnaval e com um pãozinho de cortesia para acompanhar. 

Será que este projeto qualifica para a Lei Rouanet?