Tuesday, February 16, 2016

O Pavilhão do Atraso

(Inspirado na brilhante ideia do meu amigo Andre Zaru)

O Museu do Amanhã foi recentemente inaugurado no Rio de Janeiro. Apropriado, não? País do futuro, Museu do Amanhã. É um futuro que nunca chegou e, do jeito que vai, nunca chegará. Se o museu fizer jus ao nome, o acervo será riquíssimo: inflação, desemprego, insegurança social, impostos. Tudo isso faz parte do nosso avenir.

Mas, para crianças e jovens, é importante estudar a História, para que entendam como pudemos chegar a este ponto. Portanto, parte do espaço no entorno do Museu do Amanhã poderia ser usado para abrigar o “Pavilhão do Atraso”, museu dedicado a ajudar as novas gerações a entender o porquê de o Brasil ser tão pobre socialmente, institucionalmente, tecnologicamente e, cada vez mais, economicamente.

Para acessar o Pavilhão do Atraso, o visitante teria que comprar seu ingresso na hora, pois não haveria venda pela internet. Ele entraria numa fila para pegar uma senha que lhe desse acesso à bilheteria. O pagamento seria somente em dinheiro, sendo que não seria garantido troco para notas acima de R$ 20. Cidadãos cariocas teriam direito a desconto na entrada, mediante a apresentação de cinco diferentes comprovantes de residência e últimos três carnês do IPTU (no caso de residir na cidade há menos tempo, seria necessário dirigir-se à Prefeitura para validar o desconto). Obviamente que os caixas vão conferir todas as cédulas e moedas para evitar falsificações, afinal todo mundo quer levar vantagem em tudo, não é mesmo?

Ao adentrar o Pavilhão do Atraso, o visitante estaria no Grande Hall dos Impostos, imponente sala recheada com bustos das siglas dos nossos noventa e tantos impostos, contribuições e taxas. Tudo em granito escuro, representando a transparência que o cidadão tem sobre o uso destes recursos. O observador atento notaria espaços vazios no Grande Hall, pois nossos legisladores certamente criarão novos impostos (para financiar a agenda progressista) e estes teriam seus bustos prontamente adicionados à coleção.

Em seguida, haveria uma sala intitulada “Cartórios: das Capitanias aos tempos atuais”, expondo a evolução desta tecnologia luso-brasileira. O acervo contaria com painéis mostrando a evolução dos selos cartorários ao longo dos séculos, dentre outros ítens de memorabilia.

Outras salas de destaque seriam a imponente “Caos na saúde pública: Peste bubônica, dengue, zika”, a surpreendente “Engarrafamentos e alagamentos urbanos através dos tempos – um registro multimídia” e a importante “Profissões tipicamente brasileiras: frentista, ascensorista, cobrador de ônibus, flanelinha e outras relíquias”. Sem esquecer de “Nossas conquistas trabalhistas”, com inestimáveis rascunhos e manuscritos que contribuíram para a gloriosa CLT. Em todas as salas, o visitante seria brindado com o que há de melhor na tecnologia nacional de improdutividade, culminando com “A grande sala dos carimbos”.

Contudo, a principal atração do Pavilhão do Atraso seria sua ala interativa, onde adultos e crianças poderiam colocar em prática diversos conceitos explorados na parte expositiva da visita. Haveria longas filas para cada sala (e não seria possível reservar horários com antecedência), mas com certeza a espera valeria a pena. Uma observação importante: para obter acesso à ala interativa, seria necessário conservar o canhoto do ingresso e depois carimbá-lo com a data de uso, serviço este disponível no guichê próximo aos banheiros. Isso evitaria que os espertos burlassem o sistema e reutilizassem ingressos. Tudo muito pensado e dimensionado.

A primeira atração interativa seria o “Fiorama”, uma cidade em miniatura onde todo o cabeamento elétrico é aéreo, reminiscência do século XIX. Os visitantes teriam as tarefas de substituir transformadores queimados, podar árvores que possam causar rompimento dos cabos e restaurar postes mal conservados com risco de cair. Será necessário um número elevado de participantes para que a cidade funcione bem, mas poucos times conseguirão concluir a atividade sem quedas de energia. Um realismo incrível.

Depois, haveria o concorridíssimo “Correio de Curitiba”. Nesta atividade, os participantes simulariam uma unidade postal onde chegam várias importações. O objetivo de cada equipe é demorar o maior tempo possível para liberar os pacotes e maximizar a taxação, com pontuação extra para extravio de mercadorias e taxação indevida.

Uma etapa importante seria a “Terra brasilis”, onde os visitantes aprenderiam sobre extrativismo, esta nossa brilhante atividade-mãe. Haveria um rio artificial para a prática do garimpo de pepitas de ouro, uma mini mina de minério de ferro para exploração, e uma mini fazenda para a colheita de café, cacau e outros produtos. Afinal, somos um país rico, nossa terra nos dá tudo.

O ápice da visita seria a “Viagem ao centro da lama”, onde diversos participantes competiriam por uma vaga no Congresso Nacional, numa emocionante simulação eleitoral. Cada candidato escolhe sua estratégia: filiar-se a uma legenda-de-um-nome-só para ser eleito de carona, aliciar diretores de estatais para financiar sua campanha prometendo favores se eleito, candidatar-se por estados onde nunca esteve, dentre outras. Estratégia e adrenalina puras.

E, para desanuviar o sistema nervoso, o tour seria encerrado no salão “Ela disse, Ele disse”. Neste suntuoso espaço multimídia, através de monitores CRT de última geração, os visitantes poderiam apreciar diversos discursos, entrevistas e declarações das autoridades brasileiras através dos tempos. Haveria muito material antigo, mas os tempos atuais estariam bem representados com “estocar vento”, “atrás da criança sempre tem um ser, que é um cachorro”, "a mosquita" e, claro, várias versões do “não sei de nada”.

Ao final do passeio, haveria uma área com redes e coqueiros para aqueles que desejem descansar, além de telões mostrando jogos de futebol. Tudo ao som de sambas-enredo e marchinhas de carnaval e com um pãozinho de cortesia para acompanhar. 

Será que este projeto qualifica para a Lei Rouanet?



Tuesday, February 9, 2016

Contos marroquinos


(Sempre prefiro escrever na terceira pessoa, mas desta vez não tem muito jeito...)

Numa certa noite de semana no Rio de Janeiro, fui ao cinema com minha esposa. Quando voltávamos para casa, eu dirigia seu carro e fui parado numa blitz da lei seca. Soprei e fui liberado, mas para minha surpresa, o funcionário da blitz me comunicou que o veículo seria apreendido. O carro era novo, com impostos pagos, emplacado, então por que seria apreendido?

Carros novos são isentos de vistoria anual nos dois primeiros exercícios. Minha esposa sabia disso, mas não sabia que ela tinha que comparecer ao posto do Detran para tirar o papel. É o serviço de nome irônico “poupa-tempo”. Ora, se não precisa de vistoria, não basta pagar o imposto?

Bem, desconhecimento da lei não é desculpa para que ela não seja aplicada e multa era devida. O ponto aqui é a burrice embutida na lei. Ter o veículo apreendido com todos os impostos quites pelo simples fato de não ter o papel é quase análogo ao sujeito ser autuado no meio da rua pelo fato de não portar consigo sua declaração anual de imposto de renda. A multa já bastava.

Pior do que a idiotice da lei, é a consequência. Enquanto discutíamos com o funcionário da blitz, um outro veículo recebeu sinal para parar, mas resolveu acelerar e partiu. Diversas vozes cantaram a placa, todas erradas, exceto a última. Singelamente, perguntei ao funcionário “supondo que tenham acertado a placa, o que acontecerá com este motorista?”. “Ele está frito”, respondeu. Pedi para que qualificasse melhor, ao que ele informou que teria que pagar uma multa de cerca de R$ 500. Detalhe: poderia pagar pela internet. Fritura barata essa...

Compare-se com o calvário que a minha esposa teve que enfrentar simplesmente por não ter o papel. Primeiro, comparecer à sede do Detran no centro do Rio para tirar um nada-consta do veículo. Depois, pagar uma multa de valor similar à do motorista fujão. De posse da multa paga (em dinheiro, para agilizar), dirigir-se até Campo Grande – onde ficava o depósito de veículos assinalado no boleto do reboque – para retirar o seu carro. O transporte até lá custa uma bela grana e um tempo em que deixa de produzir. Ao chegar lá, descobre que tem que pagar duas diárias (também em dinheiro), pois o funcionário esperto registrou o reboque como ocorrendo às 23:55h (embora tenha acontecido bem depois da meia-noite). Deu sorte de o carro estar lá, pois um outro cidadão desesperado descobrira que seu veículo havia sido erroneamente deslocado para a Fazenda Botafogo, embora seu canhoto do reboque indicasse Campo Grande.

Resumo da opereta: um dia de trabalho perdido de um cidadão por conta de um papel, um gasto muito superior aos R$ 500 do outro motorista, e a certeza de que a lei é burra pois contribui para afundar cada vez mais a produtividade do país e favorece o infrator.

Para tranquilizar os leitores, informo que na blitz fica um funcionário filmando toda a ação, para “garantir a segurança” do motorista parado. Ah, sim, agora fiquei tranquilo.

Alguns meses depois, viajamos ao Marrocos. Um dos passeios que fizemos (aliás, recomendadíssimo) foi pegar um tour de Marrakech até o deserto do Saara, uma viagem de três dias e mais de 1000 quilômetros. Num dos vários “checkpoints” da estrada, o soldado pediu o documento do carro e nosso motorista entregou. Começou uma discussão em árabe, mas eu pude ver no documento que havia uma data marcando dois dias antes. Imaginei que a licença havia expirado e pensei com meus botões: “acabou a viagem, o carro será apreendido, vamos ter que arrumar um transporte de volta a Marrakech, etc”.

Nada disso. O motorista informou que na parada seguinte iria resolver um problema do carro e sugeriu que nós almoçássemos enquanto isso. Paramos, pedimos o almoço e em vinte minutos ele estava de volta com novos documento e adesivo do para-brisas. Sem agendamento, sem fila, sem apreensão. Duvido que tenha pago propina, pois os países árabes normalmente têm leis severas quanto a isso. Talvez tenha pago uma multa, mas o sistema não feriu a produtividade e nem estragou as minhas férias.

Mas aqui, temos a vantagem de ter o cinegrafista nos protegendo. Ainda bem.

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Outra observação da viagem ao Marrocos foi a qualidade do asfalto. As pistas são longe de serem autobahns, na verdade são estreitas e de mão dupla na maior parte. Porém, andamos mais de 1000 quilômetros sem um buraco sequer.

Por que será que lá usam um asfalto de qualidade, com todas as camadas estruturais necessárias? Talvez pelo fato de ser uma monarquia, que não precisa recapear o asfalto a cada quatro anos com intenções eleitoreiras.

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Não é só este pequeno capítulo da nossa lei que é burro. Há diversas peças que empurram para baixo a produtividade do Brasil. Por exemplo, a saída do regime do imposto de renda simples causa uma descontinuidade negativa no lucro da empresa, de tal forma que é melhor não crescer, ou abrir um novo CNPJ. O imposto de aproximadamente 50% sobre o material escolar é uma vergonha para uma pátria que se diz educadora. E por aí vai.

Não vamos mesmo a lugar nenhum.