Tuesday, March 22, 2016

Ippon

“Não vai ter golpe”. Este é o novo brado dos petistas, dos “intelectuais” e daqueles que participam dos protestos pró-Dilma mediante pagamento e lanchinho. A própria presidente vem usando o bordão em todos os seus discursos desde que sentiu que realmente seu cargo está ameaçado por todos os flancos possíveis. 

A maior ironia é que já houve golpe. Ou melhor: golpes, no plural. E todos eles perpetrados pelo PT. Surpreso? Então o bonde da História passou e você não percebeu.

O primeiro golpe petista foi usurpar o “Bolsa Escola”, programa iniciado no governo FHC e com regra objetiva de eligibilidade: criança na escola. O PT encampou a autoria do programa, deu-lhe novo nome, alardeou o “Bolsa Família” aos quatro ventos e conferiu-lhe proporções paquidérmicas. Criou um assistencialismo sistêmico e contraproducente, desincentivando a busca pelo emprego e pela capacitação. Convenientemente, tornou os milhões de beneficiários dependentes do estado e com isso comprou seu voto nas eleições seguintes.

O golpe seguinte foi o mensalão. Segundo o Wikipedia, tratou-se de “escândalo de corrupção política mediante compra de votos de parlamentares no Congresso Nacional do Brasil”. Falhamos grosseiramente como República: como pôde um governo que engendrou este esquema manter-se no poder? Pior: foi reeleito, já que seu messiânico líder “não sabia de nada”. Golpe triplo: golpe nas finanças público/partidárias, golpe nas instituições e golpe na moralidade.

Seguiram-se golpezinhos aqui e ali. Compras de medidas provisórias, venda de empresa para conglomerados telefônicos, e outros. Coisa pouca, nem merecem maiores comentários. No meio do caminho, elegeu-se um poste.

Eis que, em 2014, veio outro grande golpe: o maior estelionato eleitoral do século. Dilma, candidata à reeleição, foi a público diversas vezes afirmar – dentre outras coisas – que a inflação estava controlada, que a conta de luz não aumentaria, que seu governo mandava investigar “doa a quem doer” e tantas outras mentiras premeditadas. Na esteira de um “Bolsa País”, lançando mão de terrorismo eleitoral e contando com uma tardia adesão do messias Lula à sua campanha, Dilma se reelegeu. Mas bastaram apenas três meses para a máscara cair com a escalada da operação Lava-Jato, a explosão da inflação e do desemprego e uma recessão “nunca antes vista na História desse país”.

E agora? Não bastasse a gestão temerária, há inúmeras evidências de dinheiro ilegal nas campanhas, e tantos outros “malfeitos” que tornam o governo de Dilma insustentável. Os poderes judiciário e legislativo, na melhor forma de exercício de sua independência, seguem os ritos necessários para interromper um governo que não goza mais de moral. Ritos estes previstos na Constituição. Onde está o golpe?

Os petistas e seus boçais simpatizantes deveriam ouvir o que disse o ex-camarada (agora coxinha?) Roberto Freire na instalação da comissão do impeachment. Lembrou aos petistas que o PT clamou pelo impeachment de Collor, depois pelo impeachment de Itamar e por fim de FHC, sempre invocando um mecanismo constante da Constituição. Este mesmo mecanismo é golpe agora? – perguntou Freire.

Esquecem os petistas – e principalmente Dilma – que o poder emana do povo e em seu nome é exercido. Dilma e PT têm reprovação de 70% da população e, portanto, não representam mais a sociedade. Dilma perdeu várias oportunidades de renunciar com dignidade, sairá do governo pela porta do fundos e passará para a História como uma personagem cômica, aquela que estocava vento e que envergonhava sua nação. E pensava-se que vergonha era o Tiririca...

O que fazem então os petistas? Tentam aplicar novo golpe e criam a cortina de fumaça do "não vai ter golpe" na melhor escola Goebbels. A verdade é que, mais uma vez, na 13ª hora (número maldito!) surge Lula-messias para se abraçar ao governo. Esse grandioso desejo de colaborar tem, para qualquer observador com meio neurônio, dupla finalidade: escapar da cadeia (a investigação “doeu” nele) e tentar articular alguma governabilidade para Dilma (sabe-se lá a que custo para o erário) de modo que a farra petista ganha alguma sobrevida.

Acontece que a sociedade cansa. O legislativo cansa. O judiciário cansa. Um golpe atrás do outro cansa. Dessa vez, não vai ter golpe mesmo. A sociedade não aceitará mais um golpe do PT.

A sociedade, esta sim, é que vai aplicar um golpe. Um golpe que mostre que a Constituição ainda vigora e que, sim, o poder emana do povo. Um golpe que fortaleça nossas instituições acima de qualquer partido ou cidadão. Um golpe que acabe de vez com partidos e políticos que se vestem de uma ideologia falida para esconder sua verdadeira agenda.

Pensando bem, não vai ter golpe. Vai ter um ippon.


Tuesday, March 8, 2016

Primeira Exibição

Nos anos 80, a porta de entrada de um filme na grade da Rede Globo era o “Primeira Exibição”. Tratava-se da sessão que ia ao ar aos sábados logo após a novela da oito, sempre trazendo um filme inédito na TV brasileira. Depois de debutar no Primeira Exibição, o filme passava a fazer parte do catálogo da Rede Globo e ocasionalmente era reprisado na Sessão da Tarde, no Corujão, ou em outros programas.

Como ocupavam um horário nobilíssimo, os filmes do Primeira Exibição eram esticados ao limite da paciência do telespectador para incluir o máximo de inserções comerciais. O filme começava na “parte 1”, mas logo no primeiro momento de maior tensão já vinha o primeiro intervalo comercial. Voltava na “parte 2” e, de novo quebrando o clímax: intervalo comercial. E assim iam seguindo “parte 3”, “parte 4”, “parte 5”. Quando o mistério ia ser desvendado quase no finzinho do filme... intervalo comercial!!?! Então, após longa espera, o filme retornava com o gerador de caracteres mostrando “parte final”, parte essa que demorava meros três minutos, mas que constituia o desfecho indispensável da história.

Com esse expediente, a sessão do Primeira Exibição demorava o dobro do tempo do filme em si. E, apesar do abominável intervalo comercial derradeiro, a “parte final” era indispensável e imperdível, mesmo às altas horas.

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Depois de algumas décadas, o “Primeira Exibição” está novamente no ar. O Brasil está prestes a estrelar um filme nunca antes exibido – a destituição de um governo populista, caudilho, corrupto e miliciano sem que haja derramamento de sangue. Os filmes que a História nos mostra na Sessão da Tarde são diferentes, envolvem luta armada, guerra civil, ou outro sortimento de sacrifício de vidas humanas quando cai o castelo de cartas.

O governo petista, apesar da inflamação recentemente ensaiada por Lula, não tem mais força para mobilizar as massas. Seus repetidos e acintosos “malfeitos” erodiram completamente seu capital político. Basta ver os ridículos movimentos pró-Dilma que pipocam aqui e ali, contando com cinquenta pessoas, todas elas remuneradas pelo gordo orçamento corrupto do PT, sindicatos, e afins. A “multidão” vermelha que apoiava Lula quando ele terminou seu depoimento em Congonhas contava com algumas dezenas de gatos pingados. E Lula ainda acha que dá para guerrear, segundo a nobre deputada cujo vídeo vazou. A platéia já está cansada e espera ansiosamente a “parte final”.

A queda do PT será como o Primeira Exibição: demorou muito mais do que deveria por conta dos intervalos. Lula e sua gangue já deveriam ter sido enxotados no escândalo do mensalão. Mas o boom das commodities gerou renda e engordou os programas sociais, o que – aliado à propaganda nazista do PT que tomou para si a autoria dos ventos de progresso – parou o filme para um grande intervalo.

Contudo, o roteiro foi ficando mais denso, a trama começou a ser revelada, a indignação seguiu crescendo e, em 2013, as manifestações ganharam corpo e o povo foi às ruas. O governo balançou, mas contra-atacou reduzindo impostos de carros e geladeiras, mandando que os bancos públicos abrissem as torneiras do crédito e turbinando ainda mais os programas sociais. Arrancou, com isso outro, intervalo: e tome comercial do governo no horário nobre financiado com o dinheiro público.

Mais à frente, o PT ainda conseguiu cavar outro break com o estelionato eleitoral de 2014. Quem não se lembra de Dilma afirmando que a inflação estava sob controle, que a conta de luz não ia aumentar e tantos outros sofismas?

Mas o filme volta a rodar. Na tela, vê-se o trabalhador desempregado, a saúde pública de joelhos, os impostos escorchantes, os escândalos sem fim, a sociedade civil se aglutinando em busca de um futuro melhor... O roteiro esquenta de vez, mas aí vem outro intervalo: manobras daqui e dali, recesso, Carnaval. “Parte 3”, “parte 4”, “parte 5”... Vai chegando o final do filme: a polícia finalmente fecha o cerco no chefão, a tensão cresce: o que vai acontecer? Intervalo de novo?


Só que alguma hora o filme vai acabar. Por mais que o intervalo final seja longo e detestável, ele termina e o desfecho da história é então revelado. Dia 13/3, o filme voltará a rodar, começará a “parte final” e o Brasil fará História.


Friday, March 4, 2016

O país dos desalmados

(Com a colaboração de Ricardo Jourdan)

A declaração do ex-presidente Lula – “não existe, neste país, alma viva mais honesta do que eu” – causou alvoroço. Os milhões de brasileiros que cansaram do PT e se enojam com o mar de lama em que nosso país está metido se revoltaram. Os aliados de Lula o enalteceram, tudo com um clima muito acalorado.

No entanto, sob a calma da lógica e da matemática, é possível demonstrar que a afirmação de Lula tem baixíssima probabilidade de ser verdadeira. Tão baixa que, estatisticamente, rejeita-se a hipótese de ela ser verdadeira.

O exercício é, na verdade, muito simples.

A hipótese implícita na afirmação de Lula é de que, dentre os mais de 200 milhões de indivíduos que residem no Brasil, não há um sequer mais honesto do que ele. Não chega a ser tão improvável como acertar a mega sena (1 chance em 650 milhões), mas está longe de ser um evento trivial – é análogo à probabilidade de acertar a mega sena com 3 apostas.

Só isso já bastaria para rejeitar a hipótese. Mas, aplicando-se uma análise dinâmica é possível descreditar ainda mais a afirmação do ex-presidente.

Cada cidadão tem, em sua consciência, uma zona branca (atitudes e condutas corretas), uma zona preta (atitudes e condutas erradas) e uma área cinzenta no meio. Ocorre que a extensão da região cinzenta varia de pessoa para pessoa e, durante o decorrer da vida, mesmo as pessoas honestas são  confrontadas com situações onde optam por trafegar em sua zona cinzenta.

É seguro afirmar que Lula (e políticos em geral) têm regiões cinzentas bem mais extensas que o cidadão comum de bem. Isso faz parte do jogo político, onde muitas vezes há que se fazer escolhas difíceis e lidar com situações de conflito de interesses. Por exemplo: é honesto usar dinheiro público para construir um estádio de futebol para um time que tem enorme torcida – deixando, portanto, um monte de gente feliz e gerando empregos– quando este time por acaso é o seu time de coração? São questões difíceis.

Durante sua longa carreira sindical e política, Lula inevitavelmente pisou no campo cinzento em diversas empreitadas (oops, ato falho) e o fez com muito mais frequência que o brasileiro honesto. Assim, ao afirmar que dentre os mais de 200 milhões de médicos, engenheiros, autônomos, e outros tantos profissionais não há ninguém mais honesto do ele, Lula constrói uma aberração estatística e destila arrogância ímpar. Rejeita-se esta hipótese com louvor.

Esta conclusão é probabilística: não é política, nem partidária e nem elitista. Deriva da lei dos grandes números. É como jogar o dado um milhão de vezes – quase que certamente ocorrerá uma sequência de dez “6” seguidos, embora se o dado fosse jogado apenas vinte vezes esta sequência seria improvável.

Dessa forma para que a afirmação de Lula seja verdadeira, o Brasil teria que ser como a cidade de Nova Iorque no filme “Eu sou a lenda”, estrelado por Will Smith. Com o detalhe de que o cachorro já teria que ter morrido e assumindo que os zumbis não têm alma.


Ou então, somos um país de desalmados.

Carta de renúncia

(Sugestão para a eventual renúncia da nossa Presidenta)


Queridos povo brasileiro e póvoa brasileira,

No meu governo, eu investigo. No meu governo não há meta, para que, depois de atingida a meta, possamos dobrar a meta. Cumpri minha missão: investigamos, prendemos e mais do que dobramos a meta de criminosos que estão com a mandioca assando. Mostra que evoluímos e, como Mulher Sapiens, fico muito orgulhosa.

Meu ciclo terminou. Como a mosquita que põe ovos, eu renuncio à Presidência da República com a certeza de que estoquei bons ventos para as gerações futuras.

Depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela não volta mais para dentro do dentifrício. Deixo o cargo exatamente com este sentimento: de que as investigações que meu governo começou não podem ser revertidas. Afinal, está chovendo.

Peço ao novo governo que olhe pelas crianças e pela figura oculta atrás delas. Elas são o futuro do país.