Wednesday, November 30, 2016

Carroças

Parem as prensas!!! Já está à venda o Del Rey modelo 2017 top de linha. Opcionais desta versão mega-premium SLXX incluem: aquecimento, relógio, barra e cadeado anti-furto, luz interna, retrovisor do carona, pisca-pisca nas laterais e encostos para cabeça. Em 2018, o Del Rey SLXX terá trava elétrica.

O anúncio acima é obviamente uma ficção caricata. Ou, quem sabe, uma realidade paralela? Como seriam os automóveis de fabricação nacional se Fernando Collor, há quase 30 anos, não tivesse dito que nossos carros eram carroças?

À época, a declaração de Collor enfureceu a Autolatina – joint-venture entre Ford e VW que controlava cerca de 60% da produção nacional... Não pela Autolatina entender que Collor denegrira a imagem de seus produtos (os executivos sabiam que, de fato, os carros eram horríveis... bem como qualquer pessoa que já houvesse alugado um carro nos EUA ou Europa), mas sim porque estava claro que viria competição a qualquer momento.

De fato: Collor abriu o mercado para carros importados, que antes eram taxados proibitivamente. A Autolatina e seu exército de lobistas tentou de tudo para impedir a mudança, mas não houve jeito, a porteira estava aberta e a boiada estava a caminho para atropelar os fabricantes de carroças. Era o fim do “monopólio”, o fim dos dias em que a Autolatina tinha sua “bancada” no parlamento e uma oportunidade perdida de extirpar de vez o câncer dos sindicatos.

A chegada dos carros importados confirmou incontestavelmente a afirmação de Collor – nossos carros eram verdadeiras carroças. Os novos modelos disponíveis traziam inúmeros opcionais que, nos veículos nacionais, inexistiam ou só figuravam em certos “tops de linha” caríssimos, e para os quais era necessário esperar alguns meses pela entrega. Ítens de segurança que faltavam em nossos “possantes” eram, obviamente, verificados nos modelos importados básicos. Conforto, tecnologia, segurança e performance passaram a estar disponíveis ao consumidor sem que fosse necessário pagar um preço premium por eles.

Resultados de curto prazo: o market share dos importados bombou e as montadoras nacionais reclamaram adoidado vendo seu império ruir.

Resultados de longo prazo: os carros nacionais melhoraram substancialmente de padrão, bem como nossas normas técnicas para ítens obrigatórios de segurança, habilitando os automóveis de fabricação brasileira a serem comercializados em outros países. Com a melhora da relação custo-benefício, mais brasileiros puderam adquirir veículos próprios e a reposição de frota instalada tornou-se mais frequente.

Ou seja: o chororô foi à toa, pois, no longo prazo, houve maior geração de valor para todos, com maior mercado endereçável, mais impostos gerados, mais empregos e consumidores mais satisfeitos.

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O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, recentemente sancionou a lei que proíbe o Uber (e outros serviços similares) de operar na cidade. Ou seja, quer defender o atraso.

Os táxis cariocas – parafraseando Collor – são verdadeiras carroças. Mal-conservados, sem opções de pagamento via cartão, sem disponibilização de recibo, sem troco... um showroom de horror.

Exagero? Basta dar um pulinho em São Paulo e comparar. Naquelas bandas, a maioria dos táxis possuem bancos de couro, carregador de celular disponível para uso do passageiro e opção de pagamento com cartão de crédito. É quase impossível encontrar um motorista que não tenha troco ou recibo, que se vista mal, ou que recuse uma corrida. Já no Rio de Janeiro... Múuuuu...

O chororô dos taxistas cariocas é o eco da choradeira da Autolatina há quase 30 anos. Ninguém quer concorrência, e, quando ela aparece, vem a mania tupiniquim do direito adquirido e a alergia tropical ao livre mercado. É a mentalidade tacanha do “quanto mais caro eu puder cobrar pelo pior serviço/produto, mais esperto eu sou”. Imaginem se os acendedores de lampiões tivessem promovido quebra-quebra na rede elétrica no fim do século XIX? Ou se a Autolatina tivesse conseguido barrar os carros importados? Andaríamos de Del Rey 2017 à espera do modelo 2018 com trava elétrica.

Ocorre que os taxistas cariocas foram expostos: o serviço é caro e ruim. A porteira foi aberta. O consumidor não é bobo. Não há volta. No longo prazo, não há direito adquirido.

Algumas cooperativas de táxis já entederam a mensagem do livre mercado e passaram a oferecer melhores serviços (carros apresentáveis e equipados, motoristas mais atenciosos) e descontos nas tarifas. Objetivo: melhorar a proposta de valor para o cliente, recuperar volume de viagens e manter a atividade financeiramente interessante para o taxista.

Infelizmente, há uma banda de vândalos que opta pelo quebra-tudo, como aquele visto há alguns dias no aeroporto Santos Dumont. “Competir” desta forma com um concorrente que possui bolso mais fundo, melhor serviço/comodidade e preço mais baixo é a mais pura burrice. Caros taxistas, não se surpreendam se o Uber retaliar bancando 80% de desconto durante dezembro e acabar com o 13º salário de vocês...

Em resumo, é tolice tentar reverter a inovação tecnológica a fim de preservar feudos, é deletério no longo prazo. É necessário aliviar os custos de regulação para os taxistas e criar uma fiscalização mínima para o Uber e afins. E só. O restante, o mercado se encarrega de resolver.

Ou então, podemos continuar andando de carroça por aí. Segura, peão!




Wednesday, November 2, 2016

We don’t need another Hiroo

As linhas cantadas pelo vozeirão de Tina Turner na trilha sonora de Mad Max são inesquecíveis:

Out of the ruins
Out from the wreckage
Can’t make the same mistake this time 
(…)
We don’t need another hero
(…)

Parecem ter sido escritas sob medida para o Brasil de hoje, um país saindo dos escombros da era PT e sem margem para cometer qualquer erro (que dirá os mesmos erros de antes). Enfim, não precisamos de outro herói. Não queremos um salvador-da-pátria, e sim um estado sério, eficiente e barato.

All we want is life beyond the Thunderdome.  

No filme, o Thunderdome era uma arena que sediava lutas armadas. Assim como na canção: sim, queremos viver além do Thunderdome. Queremos um Brasil sem “nós-contra-eles”, sem lutas sociais por pura ideologia, sem maniqueísmos - enfim, um país pacífico sob o império da lei para todos.

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Também não precisamos de um novo Hiroo.

Hiroo Onoda foi o último (ou um dos últimos, segundo algumas fontes) soldado japonês a se render na Segunda Guerra Mundial, aceitando a derrota cerca de 30 anos depois do término do conflito.

Hiroo ficou emboscado em uma ilha filipina e não depôs suas armas mesmo depois de ter notícias de que a guerra havia terminado e que o exército japonês havia se rendido. Hiroo não aceitava entregar-se, julgava necessário cumprir as ordens recebidas de seu superior até ser propriamente dispensado deste dever.

Por anos, viveu isolado, alimentando-se primordialmente de frutas. Ocasionalmente recorria a técnicas de guerrilha para conter a polícia local. Durante sua resistência, matou alguns filipinos.

Quando Hiroo finalmente rendeu-se, foi recebido com honrarias no Japão. Mas, decepcionado com a modernização do país, imigrou para – que dúvida...  – o Brasil.

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As ocupações de escolas em curso no Brasil são exatamente o Hiroo de que o país não precisa. São peões que tentam demarcar território numa guerra perdida. A esquerda perdeu nas urnas em 2016 de forma acachapante, saiu derrotada, humilhada e, possivelmente, moribunda.

Mas a massa de manobra, os “estudantes”, são o Mad Max moderno. Abarrotados e buscando fazer justiça por conta própria, tal qual o personagem. E, assim como Hiroo, matando inocentes durante o processo se for necessário.

Os ocupantes têm como principal bandeira o protesto ao “golpe” de Temer, às eventuais mudanças no ensino médio e à PEC 241. Mas, como amplamente veiculado em vídeos na internet, nem sabem articular de forma minimamente decente o que reza a PEC 241. Apenas cumprem as ordens de “professores” e facções políticas, seus "superiores" – igualzinho a Hiroo, que fazia questão de obedecer ao seu comandante, embora não houvesse mais qualquer propósito em fazê-lo...

Hiroo, ao menos, tinha motivo: seguia cegamente a cadeia militar de comando. Mad Max teve sua família assassinada pelos bandidos. Já os ocupantes, felizes matriculados em um sistema de educação pública deficitário em número de vagas, não têm motivo aceitável para protestar com a desproporção observada. No processo de ocupação, ainda impedem os outros jovens de seguirem adiante com suas vidas letivas, entendendo que seu “direito” é superior ao de outrem. Diferentemente de Hiroo, não terão honras em sua rendição – no máximo uma candidatura pelo PSOL daqui a alguns anos.

We don’t need another hero. Lula já nos mostrou que heróis não funcionam. We don’t need another Hiroo. Precisamos de ordem e progresso.