Thursday, December 29, 2016

Frágil, extremamente frágil

O que torna um sistema robusto? Como aumentar esta robustez ao longo do tempo?

O livro “Antifragile” de Nassim Taleb fecha o ciclo iniciado na sua primeira publicação “Fooled by Randomness” e seguido por “Black Swam”. Nestas obras, Taleb aborda os temas de eventos aleatórios, fenômenos não-lineares, (im)previsibilidade, dentre outros, e ajuda a responder as perguntas acima.

No volume final – “Antifragile” – Taleb mostra como pequenos choques são importantes para aumentar a robustez de qualquer sistema ou organização. É o que cunha de “antifrágil”, ou seja, algo que se torna mais resistente com o tempo. Um dos exemplos citados por Taleb, óbvio e inquestionável, é a observação da natureza – o indivíduo é frágil, mas o sistema é antifrágil: quando surge um novo vírus ou bactéria, a população exposta ao novo agente pode sofrer baixas significativas (indivíduos) mas, ao final, o sistema sobrevivente torna-se mais robusto, pois cria defesas a estes agentes.

Se não houvesse choques esporádicos, o sistema apresentaria variabilidade zero (ou seja, uma percepção de ausência de risco), mas estaria exposto a vários riscos (vírus e bactérias, mantendo o exemplo). Nesta configuração, a população tem um risco maior de ser dizimada a qualquer momento, uma vez que não acumulou defesas ao longo do tempo. Se houver a ocorrência simultânea de dois fatores de risco (exemplo: duas epidemias severas e concomitantes, um cisne negro), a chance de o sistema sobreviver é menor do que se cada epidemia acontecesse em momento diferente, embora este segundo cenário acarrete maior variabilidade de curto prazo.

Dessa forma, o passado não pode ser usado para prever o futuro, especialmente em situações onde a incidência de choques no passado foi baixa ou nula.

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Taleb aplica este conceito para analisar diversos domínios – finanças, política, literatura e outros tantos. Em um determinado momento do livro, a leitura remete a diversos aspectos observados no Brasil, que contribuem para que nosso país seja extremamente frágil em variadas esferas, seja pela ausência de choques de curto prazo ou pela mania que temos de achar que o passado tem poder preditivo.

Tome-se, por exemplo, o funcionalismo público. A crise de vários estados afeta a expectativa de remuneração futura dos funcionários, causando protestos, revolta, polêmica. Trata-se de um sistema onde não houve choques ao longo de várias décadas, pois o funcionário tinha uma renda “garantida”, com correção anual “conhecida” e percebia risco nulo em sua remuneração. Quando o dinheiro acaba e há que se repensar o custo do funcionalismo, os indivíduos não têm defesas.

O remédio para isso é a remuneração variável, baseada em performance. Um funcionalismo mais eficiente pode ajudar a reduzir o tamanho do estado a longo prazo, bem como premiar os bons servidores com um bônus de desempenho. Num mundo onde é possível avaliar livros, filmes, restaurantes, corridas de táxi e até encontros amorosos com simples toques na tela do celular, é perfeitamente factível que o estado implemente um sistema onde o usuário avalie o servidor. Os servidores bem avaliados receberão mais ao final de um bom ano, e menos ao final de um ano de pior desempenho. Choque. Variabilidade. Resistência. Antifragilidade.

O mesmo raciocínio vale para a aposentadoria. O sistema brasileiro – “pay as you go”, ou “unfunded” – com benefício definido equivale a um trem-bala andando em direção ao muro. Uma hora vai bater. O mutuário do INSS, por sua vez, nunca percebeu risco ou variabilidade – ou seja, não está preparado para uma surpresa negativa. A maneira de corrigir o problema é criar um sistema “funded”, onde cada mutuário tem uma conta segregada, podendo escolher investir em renda fixa, ações, ou combinações, sendo que ao se aposentar, viverá da anuidade que o volume poupado (com rendimentos) lhe proporcionar. A variabilidade da carteira será visível no extrato mensal, criando uma correta percepção de risco e disciplinando o indivíduo a poupar adequadamente. O sistema torna-se antifrágil.

A certa altura, Taleb menciona que guerras e conflitos de pequena escala são benéficos e até desejáveis. O ponto é polêmico, mas a ideia é que ajudam a “passar a limpo” certas questões de tempos em tempos. O cenário oposto – um período de paz prolongado – pode trazer a ilusão da ausência de risco, sendo que as questões geopolíticas, sociais, raciais, religiosas se acumulariam e poderiam levar a uma guerra de grandes proporções. Um cisne negro.

Em tempo: os veteranos de guerra constituem um grande poder moderador na sociedade, uma vigilância às práticas do estado. Pense um pouco: o sujeito que foi para o front defender seu país, deixando para trás sua família e viu seus amigos morrerem tem uma tolerância muito baixa a eventuais práticas não-republicanas dos seus governantes. Os atentados esporádicos praticados por ex-combatentes geram percepção de risco à classe política e, portanto, robustez e possivelmente antifragilidade na organização do governo a longo prazo.

No Brasil, carecemos de veteranos de guerra e de sua força moderadora... Com o agravante de nossa capital federal estar distante das nossas metrópoles, o que causa uma ilusão de “risco zero” à classe política. Ninguém tem medo e nunca houve problema no passado. Cria-se espaço para o deboche que vemos todos os dias nos jornais.

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O estado paternalista é frágil. A Coréia do Norte tem aparente estabilidade política e social, mas trata-se de um barril de pólvora, pois a sociedade não foi exposta a choques, muito menos os governantes. Um dia, explode.

A Venezuela é outro exemplo, esta já está explodindo. A Romênia de Ceaucescu explodiu, sendo o ditador e sua família executados poucos dias após ele fazer um discurso para milhares de pessoas em praça pública. A União Soviética bateu no muro quando o crescimento artificial exauriu-se. Há diversos exemplos na História.

O Brasil encontra-se em posição frágil em diversas questões econômicas, sociais e políticas: leis trabalhistas, seguridade social, jurisprudências – a lista é longa.  Tudo isso é fruto de um estado demasiadamente paternalista e protecionista, que pretende ser “tudo para todos”. Não funciona. Precisamos de choques, de risco, de variabilidade. Não é para sermos um “país de todos”, não funciona.

Do jeito que está, podemos até pedir música: “Frágil, extremamente frágil... Prá você, eu e todo mundo que tá junto”.


Thursday, December 1, 2016

Achtung Baby

O professor de História entra na sala de aula, portando consigo uma cópia de Mein Kampf, atraindo olhares obtusos dos alunos.

— Bom dia, turma. Hoje nossa aula será dedicada a estudar a jornada e o legado de um grande líder do século XX. Eu gostaria de começar no longínquo ano de...

— Nazista! Nazista! Eu me recuso a ficar aqui ouvindo você falar desse monstro, interrompe uma aluna.

— Calma, pondera o professor. Eu ia apenas dizendo que ele começou a moldar sua liderança por acreditar que podia unir seu povo num governo solidário. Ocorre que...

— Solidário, professor?! – brada outro aluno. Ele criou massas de manobra, verdadeiros escravos. A solidariedade não existia. Era um socialismo de fachada onde os “amigos do rei” tinham tudo do bom e do melhor enquanto o povo passava fome.

— Veja – retruca o professor. Ele se interessou pela política em parte por encontrar exatamente um cenário de devastação econômica, com alto desemprego e nações militarmente mais fortes se beneficiando financeiramente de acordos que...

— Isso é falácia, professor. Não há desculpa para expiar um genocida deste calão.

— Isso mesmo, faz coro outro aluno. Ainda por cima, perseguiu milhões de pessoas por racismo, intolerância religiosa e homofobia. Matou outros tantos simplesmente para criar a tal solidariedade, uma pureza fabricada. Um nojo!

— Acabou com a liberdade de imprensa e de religião, oprimiu seu povo, impediu manifestações. Professor, aqueles filmes com todo mundo ouvindo seus discursos inflamados é pura propaganda. Era uma felicidade de fachada.

 — Turma, vocês talvez sejam jovens demais para perceber que ele era um visionário, um líder que queria o melhor para seu povo. Um homem cândido por dentro, tanto que...

— Cândido? O senhor só pode estar nos zoando. O cara exterminou milhões de pessoas. Fuzilou oponentes, homossexuais, jornalistas, escritores, gente trabalhadora e de bem. Quantas famílias foram desfeitas? A única esperança para os perseguidos era abandonar seus lares na tentativa de fugir com vida e buscar um recomeço em terras estrangeiras.

— Isso mesmo, professor. Concordo com o que meu colega disse e acrescento que este monstro se apropriou de bens de civis inocentes, tomando para si terras, casas, dinheiro, obras de arte, jóias, e tudo mais. Tornou-se um homem riquíssimo sob a fachada do socialismo fraterno.

— Pessoal, vocês não vêem o quanto o legado deste líder será benéfico para seu povo no futuro? – indaga o professor, já cansado do debate.

— Professor, o senhor está louco. O mundo globalizou-se e, apesar das ondas nacionalistas mais recentes, não há mais volta. Qualquer nação que se fechar pro mundo, será destruída economicamente. O quê de bom esse sujeito deixou, meu Deus?

— Galera, vamos ocupar esse barraco aqui, grita um outro lá do fundo. Temos que expulsar esses professores reacionários desta escola! Ocupação já!

Instalou-se uma gritaria na sala por alguns minutos, até que finalmente o professor conseguiu acalmar os ânimos e concluir sua aula.

— Prezados alunos, vim aqui hoje para falar sobre Fidel Castro.

Os queixos começaram a cair...

— Pelo que percebi, vocês conhecem bastante da história deste homem, pois tudo o que vocês disseram foi bastante pertinente à trajetória dele e latente em sua doutrina.

Olhares perplexos... O professor seguiu:

— Porém, uma diferença entre Hitler e Castro é que Castro jamais obteve um voto sequer. Mesmo assim, esteve no poder por quase 60 anos.

Nem um pio... E, enfim, a conclusão do mestre:

— Certa vez, Castro disse que a História se encarregaria de absolvê-lo. Vocês, nobres alunos, o julgaram aqui hoje, condenando-o a um lugar na História ao lado de Hitler. Parabéns e até a próxima semana.


(Nota do autor: Não sei se é possível relativizar assassinos. É claro que a maldade de Hitler teve alcance muito maior. De antemão, peço desculpas aos que se sentirem ofendidos pela analogia - e não comparação - explorada no texto)