Thursday, February 23, 2017

Atropelation Blues

Há algumas semanas, indo para o trabalho de bicicleta, fui atropelado. Não, eu não fui imprudente – ao contrário, cruzei uma rua de mão dupla na faixa de pedestres, após aguardar que o sinal dos carros fechasse. No meio da travessia, na linha divisória da pista, fui derrubado por um motoqueiro.

Lembro-me mais da pancada inicial do que da minha aterrisagem no asfalto duro, quente e áspero. Levantei-me perplexo, revoltado e preocupado. Não sabia se o mais importante era verificar minha integridade física ou passar um baita sermão no motoqueiro.

Não sei se em outra ocasião o infeliz teria fugido, mas o fato é que havia três guardas de trânsito (a velha eficiência brasileira – um sinal, três guardas) que já estavam a postos quando me dei por mim novamente. Os guardas nos conduziram até a calçada e iniciaram a tomada de dados do apressadinho.

Depois de ratificar que eu não precisava ser removido para um hospital, um dos guardas perguntou se eu desejava abrir um processo contra o infrator por danos físicos e materiais (no caso de avarias à minha bicicleta). Com a perna sangrando, as costas doendo, a cabeça a mil e o sujeito pedindo desculpas, o máximo que consegui produzir foi:

–  Eu podia ter morrido, seu idiota – você diria “desculpa” às minhas filhas?

O guarda afirmava que o motoqueiro já estava autuado com a multa “mais cascuda”: tratar-se-ia de “avanço de sinal com risco de vida” (confesso que depois procurei e não achei tal infração na internet, tampouco o valor correspondente – ainda bem, teria tido náuseas). Pensei com meus botões: existe avanço de sinal sem risco de vida, com risco absolutamente zero? Como nosso arcabouço legal é ruim...

Resolvi não mover ação contra o infrator. Para quê? Nosso judiciário é lento, ruim, tendencioso, paternalista. Vou conseguir mudar a má educação do motorista carioca infernizando a vida de um único irresponsável? Só vou perder meu tempo, pensei.

Não me arrependo, teria sido perda de tempo mesmo...

Desde então, redobrei minha atenção ao andar de bicicleta no trânsito. Espero ainda alguns segundos a mais para me certificar que os cariocas apressadinhos pararam no sinal, para então atravessar a pista. Na maioria dos sinais que cruzo no meu trajeto habitual, sempre há um ou dois carros que avançam o sinal vermelho. Todo santo dia, todo maldito sinal. Ou seja, o carioca é um demente conduzindo um veículo. A vida alheia vale menos do que um ou dois minutos de espera no sinal, fato este ratificado pelo nosso código de trânsito que impõe uma multa de cerca de trezentas pratas para avanço de sinal (Quanto será com risco de vida? Uns quinhentos? Realmente “cascuda”...).

Depois do acidente, em certa ocasião, vi outro motoboy avançar de forma grosseira um sinal. A farmácia para a qual trabalha fica próxima à minha casa (vi o logotipo). Tive o trabalho de mudar meu trajeto, me dirigir até a loja, chamar o gerente e contar-lhe que eu havia sido atropelado havia alguns dias (mostrei-lhe os ferimentos). Alertei que o entregador da loja estava dirigindo de forma imprudente e poderia atropelar alguém, o que traria consequências cíveis para a loja, etc. O sujeito me olhou como se eu fosse um alienígena. Devo ser mesmo: nesta cidade, quase todo mundo segue a Lei de Gérson, mas eu não. Será que o entregador foi promovido pela sua eficiência?

No Rio de Janeiro, só tem um jeito – fazer com que a vida do cidadão valha mais que o minuto parado. Como? Aplicando multa progressiva à imprudência inominável de avançar um sinal. Primeira multa: dois mil reais. Reincidência: quatro mil. Depois oito mil, dezesseis mil, etc. Até o sujeito desistir de dirigir um veículo. Se não tiver como pagar, executa o veículo. “Ah, coitadinho do motoboy, desse jeito seria impedido de realizar sua atividade profissional”. E daí? Que busque outra atividade. Ou então, podemos também contratar incendiários para o corpo de bombeiros, já que a vida vale tão pouco perto da inclusão econômica.

Ideia: colocar uma câmera em cada sinal movimentado e sair multando. Seria uma bonança para a arrecadação e serviria seu propósito social, visando o bem comum: segurança. Colocar câmeras e radares de velocidade em estradas e deixar a bandalha comer solta nos semáforos urbanos é uma imbecilidade indizível: o estado multa o condutor que está a 100 km/h numa pista expressa de 90 km/h (onde não deve haver pedestres), mas não penaliza os espertos que avançam deliberadamente (e sistematicamente) sinais de trânsito onde há pedestres. Má alocação de recursos públicos com retorno baixo (Nulo? Negativo?) para a população. É análogo à Polícia Federal alocar contingente nos aeroportos para tentar pegar o viajante que comprou três iPads e deixar a fronteira com o Paraguai ao Deus dará.

Há alguns anos, o Rio de Janeiro “ganhou” o título de cidade da bicicleta na América do Sul (ou algo parecido). Até recebi um broche comemorativo numa pedalada de fim de semana. Piada de mau gosto, já que tantos ciclistas morrem nas nossa vias pela imprudência do carioca e impunidade a crimes no trânsito (confere, Edmundo Animal?). Ou morrem pelo desabamento da ciclovia. Ou morrem com uma facada de uma “vítima da sociedade”. Eu, felizmente, tive sorte.


Saturday, February 18, 2017

Grapiche

A determinação do prefeito de São Paulo, João Dória, em estabelecer uma sensação de ordem é louvável. A política “no broken window” de Rudolph Giuliani foi uma das alavancas para a transformação de NY em uma cidade segura. No caso de São Paulo, o primeiro alvo foi repintar os muros pichados e grafitados em locais onde tal prática não estava autorizada. Nada mau, certo?

Errado. Começa o mimimi. “Grafite é arte”, “pichação é uma maneira democrática de o povo se manifestar”, e por aí vai. Sério mesmo que a ordem pública (condição necessária mas não suficiente para progresso) tem que se sujeitar a essa discussão? Parece que sim, infelizmente.

O brasileiro paga muito caro por obras públicas, que acabam custando o triplo do que deveriam e demorando o quíntuplo do prazo estimado. E o povo reclama disso, com razão, vai às ruas protestar, grita, faz abaixo assinado. Qual é, então, o sentido de um sujeito pichar uma obra pública? Está ferindo o patrimônio público tal qual o político que desvia dinheiro. Qual o sentido deste vandalismo ser defendido pelos mesmos que reclamam do déficit de infraestrutura e da corrupção? Veja o leitor que mesmo obras mais recentes, como a ponte estaiada em São Paulo, a duplicação do Joá no Rio de Janeiro já se encontram pichadas, vandalizadas. Reclamar da corrupção em obras públicas e defender o piche ou grafite é a mais grosseira incongruência (ou seria relativização de virtudes?).

O debate sobre se grafite e piche são diferentes é um apêndice dantesco da polêmica em questão. Pura cortina de fumaça. A questão envolve julgamento individual, análogo a considerar Miró, Mondrian ou Pollock como arte (ou não). Ou, descendo o nível, discutir se a peça “Macaquinhos” é uma obra-prima ou um lixo. Maria pode gostar de Van Gogh mas achar Rothko um engodo. José pode pensar justamente o contrário. E outros podem apreciar ambos os artistas. O fato é que o trabalho de Van Gogh, Rothke, Miró, Mondrian e Pollock está exposto em museus, locais apropriados para tal e cuja visitação é voluntária, vai quem quiser. Mesmo “Macaquinhos”, sendo apresentado no teatro, está em seu habitat natural e legalizado, vai assistir quem desejar. Aqueles que consideram grafite como arte deveriam apreciar o fato de que há lugares apropriados para exposição, como é o caso em qualquer esfera artística. Se arte é livre e deve ser expressada em qualquer lugar, segue que encenar “Macaquinhos” numa escola infantil é absolutamente apropriado.

Neste Brasil onde tanto se discutem as minorias, há formas de expressão que alguns consideram arte e que não têm o mesmo “acolhimento” do grafite. Pornografia é arte? Há quem pense que sim e esta opinião deve ser respeitada (o oposto seria reacionário, certo?). Pelo mesmo raciocínio do grafite – qual seja, arte não tem lugar nem hora – seria absolutamente normal e republicano um diretor filmar uma cena pornográfica num convento ou num parquinho infantil.

Tatuagem é outro exemplo – por que os menores de idade não podem se tatuar sem autorização dos pais? Estamos tolhindo a liberdade artística? Se tatuagem é arte e arte não deve ter limites, uma tatuadora pode expressar seu talento na pele de seu filho de 8 anos? Claro que não. É necessário consentimento, que só pode ser dado quando o indivíduo tiver certa maturidade. É o mesmo que o grafite – há que se ter consentimento do poder público para grafitar um muro, senão é bagunça, anarquia. Nem é preciso ir muito longe e falar de pornografia ou tatuagem para provar este ponto: que tal um cineasta premiado fechar a Avenida Paulista um dia inteiro – sem autorização da prefeitura – para filmar cenas de seu novo filme? É arte, gente! Virem-se para ir e vir!

Em relação ao piche ou grafite em propriedade privada, não há nem o que se discutir. Os defensores desta barbaridade gostariam de acordar e ver que seu lindo carro cor prata, que já está vendido e será entregue na semana seguinte, foi grafitado com flores e pássaros durante a noite? Então por que é legítimo depredar o patrimônio imobiliário de outrém?

Ordem primeiro, e tomara que a moda pegue pelo Brasil. Progresso, depois.